Sobre o autor


Thadeu de Sousa Brandão

Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor Adjunto de Sociologia da UFERSA e do Mestrado Acadêmico Interdisciplinar em "Cognição, Tecnologias e Instituições" (CCSAH/UFERSA) - (Nota 4 CAPES). Líder do grupo de Pesquisa "Observatório da Violência do RN". Autor de "Atrás das Grades: habitus e interação social no sistema prisional", "A Senhora do Sertão: a Festa de Sant'Ana de Caicó" e co-autor de "Rastros de Pólvora: Metadados 2015" e de "Observatório Potiguar 2016: Mapa da Violência do RN". Apresentador do Programa Observador Político da TV Mossoró e 93FM. Colunista do Jornal O Mossoroense.

Política, Sociologia, Ciência, Cultura e Filosofia. Blog criado em 22 de Outubro de 2012 e organizado por Thadeu de Sousa Brandão.

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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Metodologia de Pesquisa em Ciências Sociais: reflexões sobre técnicas qualitativas

Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais e Professor de Sociologia da UFERSA.





INTRODUÇÃO

Quando falamos em "Técnica", falamos de procedimentos ou conjuntos de procedimentos, de modos de fazer bem definidos e transmissíveis, destinados a alcançar determinados objetivos. Como todo procedimento, é ação específica, sistemática e consciente, obedecendo a determinadas normas e visando determinado fim. É conservada e repetida se sua eficiência for comprovada pêlos resultados obtidos. Toda técnica nas Ciências Sociais é mecanismo de captação do real e não pode ser confundida com o material reunido, isto é, com os dados.[1]
A captação dos dados nas Ciências Sociais pode servir para resolver questões propostas por relações existentes no interior das coletividades. Para o pesquisador social (o cientista pois sim!), o levantamento de dados é o primeiro momento de um processo que se desenrola em várias fases, isto é, de modificações em sequência, se escalonando a partir do projeto de pesquisa, passando pela coleta do material, pela sua análise, até chegar ao término com o relatório final ou a publicação.[2]
O material levantado é, em si, um conjunto de informações reunidas de acordo com um ponto de vista e um sistema - conjunto empírico que deve ser trabalhado por outros procedimentos como a descrição, a análise, o levantamento de inferências, a compreensão, a explicação os quais se sucedem como fases diferentes e inconfundíveis.
Aqui, tentaremos abordar quatro maneiras específicas de abordagem e levantamento de dados nas Ciências Sociais: História de Vida; História Oral; Entrevista (não-diretiva) e o Questionário. Cada um com suas especifícidades e qualidades. Cada um apresentando-se como um fundamental instrumento para se tentar perceber a realidade social.
No que tange à história de vida e à história oral, alguns procedimentos e características serão extremamente semelhantes. O mesmo acontecendo com a entrevista não-diretiva. Somente o questionário parece distanciar-se caracteristicamente das demais. No geral, porém, são utilizáveis em várias condições e em várias metodologias, algumas vezes, sós, outras vezes, acompanhadas e complementadas umas pelas outras.
As colocações básicas e pertinentes aqui foram escritas à várias mentes. Quero dizer com isso que os autores de toda a bibliografia citada e apontada me foram mais do que apoios, verdadeiros companheiros. Perceber a necessidade do aprofundamento das técnicas de pesquisa nas Ciências Sociais é uma necessidade constante. Se é aprendida teoricamente, é também reaprendida na prática cotidiana. Mas, sem teoria não há prática já dizia Lênin. Eis um pouco dela então.

HISTÓRIA DE VIDA

Bastante utilizada no início do século por vários cientistas sociais europeus, a história de vida foi relegada ao ostracismo com o grande desenvolvimento das técnicas estatísticas, no final dos anos 40. Com o passar do tempo, foi se percebendo que valores e emoções permaneciam escondidos nos próprios dados estatísticos, já que "as definições das finalidades da pesquisa e a formulação das perguntas estavam profundamente ligadas à maneira de pensar e de sentir do pesquisador"[3] que levava para os seus dados sua própria percepção e seus preconceitos.
Apoiada dentro do amplo quadro da "história oral", a história de vida constitui um tipo de forma informação captada oralmente. No entanto, devido a sua especificidade, pode encontrar dados em documentação escrita. É muito semelhante às entrevistas, os depoimentos pessoais, as autobiografias, as biografias (Cf. NOGUEIRA, 1953).
A história de vida se define como o relato de um narrador sobre sua existência através do tempo, tentando reconstituir os acontecimentos que vivenciou e transmitir a experiência que adquiriu. Narrativa linear e individual dos acontecimentos que nele considera significativos, através dela se delineiam as relações com os membros de seu grupo, de sua profissão, de sua camada social, de sua sociedade global, que cabe ao pesquisador desvendar. Desta forma, o interesse deste último está em captar algo que ultrapassa o caráter individual do que é transmitido e que se insere nas coletividades a que o narrador pertence. Porém, o relato em si mesmo contém o que o informante houve por bem oferecer, para dar ideia do que foi sua vida e do que ele mesmo é.[4]
Assim, como ela é contada por um personagem e gira em torno deste, pode-se dizer, à primeira vista, que ela é algo eminentemente individual, sofrendo as distorções trazidas pela subjetividade do narrador. No relato de uma história de vida, o pesquisador colhe dados que indicam como se formou a personalidade de um indivíduo, através de sequências de experiências no decorrer do tempo. "Indivíduo" significa alguém que se tomou isoladamente, extraindo-o do interior de uma coletividade para considerá-lo em si mesmo, naquilo que o distingue dos demais, quando se estuda a personalidade do indivíduo parece que se estuda algo distinto daquilo que chamamos de sociedade. A velha distinção durkheimiana de individual X coletivo.
Bem, se o indivíduo obedecesse a determinações exclusivamente suas e inconfundíveis, realmente a técnica história de vida seria imprópria para uma análise qualquer das Ciências Sociais. Mas, o que existe de individual e único numa pessoa é excedido, em todos os seus aspectos por uma infinidade de influências que nela se cruzam e às quais não pode por nenhum meio escapar, de ações que sobre ela se exercem e que lhe são inteiramente exteriores. Tudo isto constitui o meio em que vive e pelo qual é moldada. Finalmente, sua personalidade, aparentemente tão sua, tão peculiar, é o resultado da interação entre suas especificidades, todo o seu ambiente, todas as coletividades em que se insere.[5]
A opção metodológica pela história de vida considera que estão implícitos nos discursos, não acarretando contradições, o que é verdadeiro e o que é inventado. Estas duas instâncias fornecem subsídios para o alcance mais amplo do imaginário, tomando-se implícitas na metodologia adotada. Fornecem, ainda, as imbricações da biografia do indivíduo (suas características sociais e personalidade) com o social mais amplo, o que possibilita perceber o ideário e as relações sociais preponderantes da e na sociedade (FERRAROTTI, 1990, p. 27). Assim, "a história de vida confere carne e sentido humano" (Idem, p. 45) às condições sociais suportadas pêlos indivíduos e grupos, por ser uma história de emoções vividas; ou como afirma este autor (Idem, p. 05), amenizando a distância entre pesquisador/ pesquisados, "pressupondo mesmo uma situação de igualdade" (Ibidem, p. 45).
Isto posto, a história de vida capta o que se sucede na encruzilhada da vida individual com o social. Assim, se buscam as marcas de seu grupo étnico, de sua camada social, de sua sociedade global - vários níveis que apresentam estruturas, hierarquias, valores ora harmoniosos, ora em desacordo, o que tudo se reflete no seu interior.
A maneira espontânea de um entrevistado falar sobre qualquer assunto é através de sua pessoa a maneira natural de uma pessoa explicar algumas coisas diante do gravador, é através de um fragmento de relações ,fornecendo assim, no emaranhado de "casos", aquilo que mais interessa ao pesquisador.
Os relatos constituem o elo entre a vivência e o pensamento, facilitando a interpretação antropológica, pois a história de vida, longe de ser um conjunto de elementos ilustrativos do que já é conhecido, adiciona elementos qualitativos ao que tem sido elaborado de outras formas.
As histórias de vida são marcadas por avanços e recuos. O bom pesquisador não interfere para estabelecer uma cronologia, pois sabe que também estas variações no tempo podem constituir indícios de algo que permitirá a formulação de inferências; na coleta de histórias de vida, a interferência do pesquisador seria preferencialmente mínima.
Uma característica fundamental da história de vida é que ela demanda um longo tempo para sua aplicação. Não é em uma ou duas entrevistas que se esgota o que um informante pode contar de sim mesmo, tanto mais que a duração delas é limitada devido ao cansaço. Além de exigir muitos encontros com o narrador, também deve-se contar quanto levam os relatos para serem transcritos.
Aqui, embora o pesquisador, de certa maneira, dirija o diálogo, quem decide o que vai relatar é o narrador, diante do qual o pesquisador deve se conservar tanto quanto possível, silencioso. Não que permaneça ausente do colóquio, porém suas interferências devem ser reduzidas, pois o importante é que sejam captadas as experiências dos entrevistados.
No entanto, todo registro de uma história de vida, mesmo quando é feito por gravador, desliga-a do contexto em que se deu a entrevista; e esta falha é mais grave se a entrevista teve lugar fora dos lugares em que o informante habita ou trabalha. Deste modo, como já ressaltamos anteriormente, é imprescindível utilizar, juntamente com a história de vida, outras técnicas de pesquisa. Caso isto não ocorra, há uma enorme chance de se executar um trabalho limitado.[6]
Uma das dificuldades mais encontradas quando se utiliza a técnica de história de vida é a longa duração das entrevistas. Estas não devem ser muito longas pois, em geral cansam os entrevistados, principalmente os idosos. Melhor é diminuir o tempo das entrevistas e aumentar a quantidade de visitas.
Outra dificuldade para o pesquisador é, sem dúvida, a transcrição de enorme quantidade de material coletado que, invariavelmente, toma muito tempo e toma a pesquisa ainda mais longa.
O levantamento da história de vida é utilizado por alguns no início da pesquisa, para que se possam formular questões pertinentes cuja investigação seria efetuada por meio de emprego de outras técnicas e, por outros, é utilizado como elemento de controle para certos resultados obtidos através de outros procedimentos. Num caso ou em outro, chega-se à técnica história de vida por meio dos valores inerentes aos sistemas sociais em que vivem os informantes, onde dados estatísticos certamente não forneceriam.
Comportamentos e valores são encontrados na memória dos mais velhos, mesmo quando estes não vivem mais na organização do que existira anteriormente e se esmaecera nos embates do tempo. Se a memória de determinados valores e comportamentos se desfizesse com o desaparecimento das organizações sociais, então seria impossível a utilização das histórias de vida em particular, na análise de coletividades e sociedades.
Mas, uma vez captada e analisada uma ou várias histórias de vida, apresenta ela informações cuja amplitude pode ser em seguida pesquisada por meio de amostragem estatística e utilização de questionários e entrevistas abertas (qualitativas).[7]
Para o sociólogo francês, Pierre Bourdieu, as histórias de vida entram como uma espécie de contrabando no universo científico. Isso dentro da perspectiva que uma vida é tratada sempre como o conjunto dos acontecimentos de uma existência individual concebida como uma história e o relato dessa história. Pelo senso comum, a vida seria um caminho, com começo, etapas e um fim (término e finalidade). Essa noção coincide com o conceito de história como sucessão de acontecimentos, de modo que a vida seria um todo coerente e orientado, a expressão unitária de um projeto.[8]
Nessa altura, o autor faz uma aproximação de vida com identidade, na medida em que essa só é perceptível em suas manifestações e talvez a única maneira de apreendê-la seja o relato. Para o mundo social, identidade é constância, previsibilidade ou inteligibilidade. Isso é normalidade. Para obtê-la, esse mundo dispõe de instituições normalizadoras e de unificação, como é o caso do nome próprio.
O nome institui uma unidade social constante e durável, garantindo uma identificação em qualquer campo em que o nonimado atue como agente. O nome próprio seria uma identidade do ser consigo mesmo e, em vista disso, não pode variar. Deve ser um "denominador rígido".[9]
Bourdieu diz que o nome não pode descrever aquilo que nomeia (que é mutável) e somente como uma formidável abstração é que ele pode atestar uma identidade socialmente constituída. Cabe, aqui, uma questão:, se o "eu" define a consciência individual, o identificar-se como ser singular, não seria o nome mais do que uma abstração, urna representação dessa consciência individual que não muda radicalmente a não ser em caso de patologias? Bem, Bourdieu não nos responde neste texto.
Para Bourdieu, o relato de uma vida é um discurso sobre si, portanto, regido pelas mesmas leis que regem a produção dos discursos. Ele varia conforme o mercado em que é oferecido. Isso porque o relato baseia-se numa tentativa de atribuir um sentido, de extrair uma lógica retrospectiva e prospectiva, com relações constantes e inteligíveis entre as diferentes sucessões de fatos. A cronologia não é determinante. A ideologia, sim. Portanto, haveria uma criação artificial de sentido num relato autobiográfico, ou biográfico, tanto quanto num romance.
Essa situação decorre do fato de que o real é descontínuo, formado por elementos justapostos sem razão e de caráter único e aleatório. Como produzir um relato de vida coerente e uniforme tendo por base essa realidade? Por isso, produzir um relato de vida coerente e consequente é visto como uma possível ilusão retórica. Ao mesmo tempo, ele coloca que não se pode tugir à pressão do social, que coloca a experiência comum da vida como uma totalidade. Aqui. Bourdieu recorre ao "eu" kantiano, que liga as representações numa consciência e elege o "habitus" como o princípio ativo de unificação das práticas e representações.[10]
Nessa direção, ele alerta que a análise crítica dos processos sociais deve conduzir à construção de uma noção de trajetória como série de posições sucessivas ocupadas por um mesmo agente (ou mesmo um grupo) num espaço que é ele próprio um devir, estando sujeito a incessantes transformações. Aí estaria uma mais adequada utilização dos acontecimentos biográficos como colocações e deslocamentos no espaço social.


ENTREVISTA (NÃO DIRETIVA)

A entrevista supõe uma conversação continuada entre informante e pesquisador; o tema ou o acontecimento sobre que se conversa foi escolhido, em geral, por este último por convir ao seu trabalho. O pesquisador dirige, pois, a entrevista; esta pode seguir um roteiro previamente estabelecido, ou operar aparentemente sem roteiro, porém na verdade se desenrolando conforme uma sistematização de assuntos que o pesquisador já tem pronto em sua mente.
Ela em geral é utilizada nos estudos exploratórios para preparar um questionário-padrão ou é concebida como meio de aprofundamento qualitativo da investigação.
A não-diretividade não constitui um remédio ao problema da imposição de problemática e traz mais ilusões quando se perdem de vista as diferenças sociais que existem ao nível da capacidade de verbalização dos indivíduos. Em função das classes ou de outros elementos de diferenciação, todos os indivíduos não têm a mesma capacidade de falar, sobretudo em situação artificial na qual um interlocutor exterior ou "estranho" permanece, na maior parte do tempo, numa posição de ouvinte. Citando Bourdieu, Thiollent (1987) diz que

a entrevista não-diretiva que rompe com a reciprocidade das trocas habituais (desigualmente exigível, segundo os meios sociais e situações) incita os sujeitos a produzir um artefato verbal que é desigualmente artificial, segundo a distância existente entre a relação com a linguagem favorecida pela classe social dos sujeitos e a relação artificial com a linguagem deles exigida (p. 80-81).

Este tipo de crítica, baseada na desigualdade e na diferença dos modos de comunicação em função das classes, por mais justificável que pareça, não invalida necessariamente o uso de entrevista não-diretiva, na medida que o objetivo não consiste em estabelecer comparações ou "adições" dos discursos das pessoas cultas e ignorantes. Antes de tudo, trata-se de explorar o universo cultural próprio de certos indivíduos em referência às capacidades de verbalização específica do grupo societário ao qual pertencem, sem comparação com outros grupos (Idem, p. 81).
A captação dos dados decorre de sua maior ou menor habilidade em orientar o informante para discorrer sobre o tema; é este que conhece o acontecimento, suas circunstâncias, as condições atuais ou históricas, ou por tê-lo vivido, ou por deter a respeito informações preciosas. Elas ora fornecem dados originais, ora complementam dados já obtidos de outras fontes.
Deve-se recorrer à entrevista, sempre que se tem necessidade de dados que não podem ser encontrados em registros ou fontes documentais e que se espera que alguém esteja em condições de responder. Assim, se se trata de conhecer a atitude, preferência ou opinião de um indivíduo a respeito de determinado assunto, ninguém está mais em condições do que ele para dar tais informações. Somente em casos excepcionais tais dados podem ser fornecidos por terceiros ou encontrados em fontes documentárias.
É a técnica de pesquisa mais utilizada pêlos cientistas sociais para os mais diferentes propósitos, mas, o fato de ser que unanimente admitido que grande parte do sucesso da entrevista depende do bom senso do entrevistador, uma série de críticas têm sido feitas a este instrumento de pesquisa, tanto com o fim de determinar o grau de fidedignidade dos dados obtidos como com o de sistematizar a experiência que diferentes pesquisadores têm acumulado, a este respeito.[11]
Um dos motivos de dúvida quanto à validade científica de dados obtidos através da entrevista resulta da possibilidade de serem os entrevistados influenciados, em suas respostas, consciente ou inconscientemente, pelo entrevistador.
O entrevistador pode concorrer para o fracasso da entrevista, quer por falta de planejamento, quer por imprecisão das perguntas, quer por falta de habilidade.
O entrevistador deve esforçar-se a fim de obter a cooperação do entrevistado, sem, contudo, procurar ser astuto, pois tal atitude mais frequentemente leva ao fracasso do que ao sucesso. Uma vez que o entrevistado, geralmente, é colocado nesse papel pelo fato de saber mais do que o entrevistador sobre o assunto da entrevista, é mais fácil ele enganar o entrevistador do que ser enganado por este. A impressão de que o entrevistador está procurando ser astuto, pode levar o entrevistado à suspeita e má vontade, ou induzi-lo a tentar lograr o entrevistador. Assim, a atitude mais adequada, por parte do entrevistador, é a de franqueza e sinceridade, a fim de estabelecer com o entrevistado o devido rapport, isto é, uma relação de mútua confiança, propicia ao desenvolvimento da entrevista e à eliminação das barreiras iniciais.[12]
Depois de despertar no entrevistado o desejo de falar, o entrevistador deve deixar que ele fale livremente, sem interrompê-lo para fazer perguntas específicas a respeito de minúcias. Em geral, os dados obtidos através de narrativas livres têm mais valor, embora menos completos, do que as informações obtidas através de interrogatório. Assim, será conveniente deixar que o entrevistado esgote o assunto espontaneamente, para depois fazer perguntas que o levem a completar o relato feito, adicionando detalhes consciente ou inconscientemente omitidos.
Para o preparo de uma entrevista é necessário proceder de alguns modos específicos. Em primeiramente, o entrevistador deve planejar a entrevista, delineando cuidadosamente o objetivo a ser alcançado. Para isso, é bom obter, sempre que possível, algum conhecimento prévio a respeito do entrevistado.
É importante, marcar a entrevista com antecedência, para hora e local do entrevistado, pois os transtornos que a entrevista ocasionar a este provavelmente se refletirão nos resultados - significando que, é importante por isso, nunca se atrasar ou deixar de ir ao encontro.
É necessário criar uma situação discreta para a entrevista, pois será mais fácil obter informações espontâneas e confidenciais de uma pessoa isolada do que uma pessoa acompanhada ou em grupo ; escolher o entrevistado de acordo com a sua familiaridade ou autoridade em relação aos fatos que se está investigando, não importando a familiaridade ou autoridade que ele tenha ou deixe de ter a outros respeitos e preparar um esquema ou lista de questões que, devido à sua importância, não devem ser omitidas.
No tocante ao desenvolvimento da pesquisa, ou seja, durante a entrevista é importante se observar algumas regrinhas básicas. Como: obter e manter a confiança do entrevistado; procurar situações favoráveis para a entrevista, evitando ocasiões inoportunas para o entrevistado, que o obriguem a interromper outras atividades de seu interesse, ou ocasiões em que este esteja irritado, fatigado ou impaciente.
É fundamental pôr o entrevistado à vontade, preservando-lhe e facilitando-lhe a espontaneidade e dispor-se a ouvir mais do que a falar, pois o que interessa é o que o informante vai dizer; dar tempo bastante a que o entrevistado discorra satisfatoriamente sobre o assunto, pois se o tempo concedido for demasiadamente curto, poderá acontecer que as evocações mais interessantes ocorram depois, quando o entrevistado já estiver ausente.
Também manter o controle da entrevista, sem se mostrar impertinente, mas reconduzindo sempre, com tato, o entrevistado ao objeto da entrevista; não fazer perguntas diretas enquanto não julgar o entrevistado pronto para dar a informação desejada e disposto a fazê-lo cuidadosamente; deixar o entrevistado falar e depois ajudá-lo, com perguntas a respeito de detalhes, a completar o que disse; apresentar primeiro as perguntas que tenham menos probabilidade de provocar recusa ou produzir qualquer forma de negativismo; fazer apenas uma pergunta de cada vez; evitar pergunta que implique ou sugira a própria resposta.
Conferir as respostas, sempre que possível, transformando, por exemplo, as percentagens dadas pelo entrevistado nos números a que correspondem para que ele próprio indique se era essa a proporção que tinha em mente; registrar os dados imediatamente ou na primeira oportunidade que se apresentar e, ao encerra a entrevista, ficar alerta para informações adicionais que o entrevistado estava inclinado a oferecer mas não apresentou durante a entrevista quer por considerá-las sem importância quer por considerá-las demasiadamente triviais.

BIBLIOGRAFIA

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________.   Crítica   Metodológica,   Investigação   Social   e   Enquete Operária. 5a Ed. São Paulo: Polis, 1987.


[1] QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Relatos Orais: do "Indizível" ao "Dizível". In: SIMSOM, Olga de Moraes Von (ORGÀ Experimentos com Histórias de Vida (Itália-Brasil). São Paulo: Vértice, Editora Revista dos Tribunais, 1988. (Enciclopédia Aberta de Ciências Sociais: v. 5). P. 29.

[2] Idem.

[3] QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Relatos Orais: do "Indizível" ao "Dizível". Pg. 15. In: SIMSOM, Olga de Moraes Von (ORGj. Experimentos com Histórias de Vida (Itâlia-Brasil). São Paulo: Vértice, Editora Revista dos Tribunais, 1988. (Enciclopédia Aberta de Ciências Sociais: v. 5).

[4] Idem, Pg. 20.

[5] Ibdem, Pg. 36.

[6] Idem, Ibdem, Pg. 25-26.

[7] Ibdem, Ibdem, Pg. 28.

[8] Ver In: BOURDIEU, Pierre. A Ilusão Biográfica. In: Usos e Abusos da História Oral. Ferreira & Amado (orgs), Rio de Janeiro: Ed. Da Fundação Getúlio Vargas, 1996.

[9] Idem.

[10] Ibdem.

[11] Ver In: (NOGUEIRA: 1964; p. 112).       


[12] 17 Idem, p. 114.

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