terça-feira, 23 de abril de 2013

Mossoró: sertão, seca e o homem

Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais e Professor de Sociologia da UFERSA.


Mossoró está inserida no Sertão do Rio Grande do Norte. Sertão com todas as suas representações e facetas. Sertão árido e pedregoso. Tantas as pedras que temos a impressão de estarmos vendo ruínas de alguma civilização perdida. Esta foi uma das impressões de Euclides da Cunha. Pó e pedra, sol e calor. “Uma paisagem impressionadora”, noticiou o jornalista em sua Obra Prima. O martírio da terra, a secura do ar, a rudeza do homem. Eis as expressões cunhadas pela visão do cronista. Nos leitos dos rios, já secos, esparramam-se oásis verdes, pontos de descanso e vida. Onde o homem e os animais aconchegam-se e descansam. Onde matam sua sede com a pouca, rala e suja água que há. Quando há.
É o sertão das pedras. Pedras infinitas. Dá-nos a impressão, como dissemos, de estarmos diante das ruínas de uma antiqüíssima civilização. Uma verdadeira civilização de pedras.
A capacidade ancestralmente imputada nas representações coletivas de que o sertão é a terra da adversidade e da rudeza. Mas é do deserto que brota a riqueza, e esta riqueza maior é o homem. A bíblia está cheia dessas representações. Assim como Moisés retirou água do rochedo (Ex 17, 1-7), destas pedras deverá brotar a vida apesar de tudo. A pedra é o alicerce seguro pelo qual algo pode ser edificado. Assim, Jesus conclama: “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). Pedra que cria, que eterniza.  É a terra que eterniza a mais antiga das maldições:
 

Maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e em pó te hás de tornar (Gn 3, 18-19).

E o homem é fruto da maldição da terra porque ele é pó, ele também é pedra. Mas o lamento do homem sertanejo deve chegar até o céu porque Deus, que também é rocha, que também é pedra, deve escutar o lamento do sofredor: “só em Deus repousa minha alma, só dele vem a salvação. Só ele é meu rochedo, minha salvação, minha fortaleza” (Sl 61, 2-3).
Apesar de tudo o sertão é a Terra Prometida. É a terra para onde se volta e onde se encontra a raiz do homem. É a terra onde a água é a preocupação central. Onde tudo gira em torno da água. Onde uma bênção para um homem é “como uma chuva”, algo maravilhoso. A água que simboliza a soma universal das virtualidades; ela é fons et origo, o reservatório de todas as possibilidades de existência; ela precede toda a forma e suporta toda a criação.
No inverno é o momento da revitalização da terra. Imediatamente a vida volta a brotar onde ela, aparentemente, deixara de apresentar-se. Com o inverno, vem as esperanças do sertanejo, esperança de poder sobreviver sem ter de deixar seu pó. Revitalizam-se os umbuzeiros, faveleiras, juazeiros, algarobas e juremas, revitaliza-se a flora e a fauna. Flores do sertão. Bichos do sertão. Euclides da Cunha chega a conclusão de que “o sertão é um paraíso”. Sua ressurreição das cinzas o faz uma verdadeira Fênix.
Nas secas, esta “terra que Hegel não citou”, morre novamente. Suas manhãs, espetáculos para os olhos e para a alma, tornam-se mais quentes e seus dias maiores. Seca-se tudo, águas, animais e homens. Inicia-se o martírio secular da terra. “O martírio do homem, ali, é o reflexo da tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da vida” (Euclides da Cunha, Os Sertões). O homem ali é forte, pois o sertanejo é um forte, antes de tudo.
Esse homem é o vaqueiro ancestral, que domou a terra. Assim, após cada seca ancestral renasceria todo aquele mundo e o vaqueiro “seria o dono daquele mundo”. Pois o vaqueiro e sua gente eram mais fortes que a seca e do que as atividades duras a que seu cotidiano lhes impunha. Eles eram como “as catingueiras e as baraúnas”, sua força vinha dali mesmo, pois “estavam agarrados à terra”. Esperança era só uma, de que “as secas desaparecessem e tudo andasse direito” (Graciliano Ramos, Vidas Secas). Ainda assim, seu mundo era o melhor dos mundos, pois embora não fosse realmente seu, de posse real, o era no uso, pois ele era o vaqueiro, “o dono daquele mundo”. 
A maior preocupação do vaqueiro no sertão, para manter a si e ao gado, era a obtenção de água. No final das estações secas, os poços naturais dos rios já se encontravam secos, fazendo com que se apelasse para as cacimbas. No caso da alimentação, com a terra ressequida e sem pasto, restavam ao gado algumas cactáceas, como o xiquexique. Ter um poço perene para dar de beber ao gado, assim como manter um pequeno pasto em torno deste poço, era extremamente importante nessas paragens. Daí a significação de um poço que não secava no leito de um rio. 
Num primeiro momento, a necessidade de recuperar e apartar o gado alçado nos campos ensejava formas de cooperação como as vaquejadas, tornando-se depois festas regionais. Do mesmo modo, o culto dos santos padroeiros e as festividades do calendário religioso – centralizado nas capelas e igrejas matrizes com os respectivos cemitérios, dispersos pelo sertão, cada qual com seu círculo de devotos representados por todos os moradores das terras circundantes – proporcionavam ocasiões regulares de convívio entre as famílias de vaqueiros de que resultavam festas, bailes e casamentos. Pois, afora essa convivência vicinal e que se circunscrevia aos vaqueiros da mesma área, o que prevalecia era o isolamento dos núcleos sertanejos, cada qual estruturado autarquicamente e voltado sobre si mesmo, na imensidade dos sertões.
Essa cultura voltada para o criatório ensejará a construção de uma gama de produtos próprios, tendo o gado como seu epicentro. Sua alimentação irá expressar essa característica, onde o leite e a carne de gado serão os principais alimentos. No mais a herança indígena estará fortemente presente na farinha de mandioca, na batata-doce, no feijão e em várias frutas locais, assim como no gosto infindável por carne de caça: preás, mocós, etc. Do indígena, herdarão também o sertanejo as redes embaladoras e solícitas que, no calor abrasador e na falta de camas, será, por séculos o único local de repouso e dormida do homem do sertão. Acostumando-se, a se embalar desde bebê, primeiramente pelas cunhãs, depois pelas matronas, o sertanejo fará da rede de dormir parte integrante de sua identidade.
Esse homem surgido das pedras, da seca e da lida com o gado é o sertanejo. Em Mossoró e no Sertão potiguar, sua força sai da terra e de sua secura aliviada com as chuvas. Daí o porque, amigo litorâneo, a chuva ser tida como uma bênção para o sertanejo. Ela é o momento em que, após séculos de ocupação, esse homem, ex-vaqueiro em seu imaginário, vê as esperanças de reconstrução de sua terra cair do céu. Eis o fim da seca no sertão. Eis o homem. 

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