segunda-feira, 3 de junho de 2013

Vítimas da violência: traumas de guerra

Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Consultor de Segurança Pública da OAB/RN e Professor de Sociologia da UFERSA.



Em importante estudo sobre a violência no Brasil, Gláucio Ary Dillon Soares e outros pesquisadores no Rio de Janeiro estudaram aquilo que denominaram de "Vítimas Ocultas". “Ocultas” porque são invisíveis para a sociedade civil e para o poder público. É pouco o que se conhece sobre parentes e amigos que perderam seus familiares por mortes violentas; não sabemos quem são e, muito menos, como reagem e sentem a perda das pessoas amadas. Sem essas informações, nada podemos sugerir e , por isso, pouco pode ser feito ou cobrado aos executivos federais, estaduais e municipais
Segundo os cientistas as mortes violentas, particularmente os homicídios, não se distribuem aleatoriamente pela população. Suas vítimas situam-se preferencialmente em segmentos muito específicos: jovens de sexo masculino, muitos deles negros, pobres e com baixa escolaridade, moradores de nossas cruéis periferias urbanas. Essa concentração faz com que muitas pessoas precisem conviver cotidianamente com a violência e, não raro, sofram perda violenta não de uma, mas de várias pessoas queridas.

“O trauma associado aos casos de homicídio é aparentemente superior ao de mortes acidentais, pois naqueles, além da tragédia e da perda, é mais difícil encontrar uma lógica e identificar a “vontade de Deus” com a da mão homicida. Mortes por homicídio são, quase que por definição, mortes evitáveis, mortes que não deveriam ter acontecido e que, por isso, desafiam o raciocínio e o espírito. Nelas, por outro lado, é preciso lidar com as questões de culpa e de punição.” (2006, p.13)

Nesse ínterim, a tentativa de procurar os culpados pode ter como consequência uma nova agressão, talvez fatal, contra os sobreviventes. Dessa forma, num cenário de falência generalizada dos mecanismos sociais e jurídicos de produção de justiça, é comum que o entorno da vítima, e não o algoz, acabe pagando o preço pelo crime. As famílias das vítimas das ditaduras conhecem muito bem esse quadro. Geralmente, o crime fica impune não porque se ignore a identidade do assassino, mas porque não há nada a ser feito para transformar esse conhecimento numa punição legal. E esse conhecimento torna-se uma violência cotidiana para quem precisa conviver de perto não apenas com a impunidade, mas com os próprios homicidas. O resultado de uma pressão tão atroz costuma ser ou a vingança ou a total anulação da vítima – que pode ser como o termo psicológico de “indefensão aprendida” (learned helplessness) – e, por extensão, da sociedade como um todo.
A violência já faz parte do nosso cotidiano: é uma presença real, agravada pelo destaque que recebe na mídia. Não obstante, como ela está presente dia a dia, mês após mês, entra ano, sai ano, existe uma real possibilidade de banalização.
A hipótese dos pesquisadores é que, dentre as pessoas que perderam parentes e amigos por mortes violentas, ou seja, “vítimas ocultas”, várias desenvolvam a Desordem de Estresse Pós-Trauma (DEPT):

“A maioria das pessoas que vivem em evento traumático se recupera dessa experiência sem desenvolver a DEPT; entretanto, alguns são seriamente afetados, e mais tarde desenvolvem a DEPT, desordem que pode alterar a maneira de a pessoa pensar, sentir e agir, podendo se manifestar em um amplo leque de sintomas físicos. Em casos extremos pode interromper a vida profissional e pessoal das pessoas afetadas por ela.” (2006, p.27).

No Brasil, levantou-se também a possibilidade de que o alto nível de violência na sociedade civil, na mídia, assim como a violência policial, pode gerar DEPT em pessoas que não experimentaram a violência nem diretamente, nem indiretamente através de familiares e amigos. A violência também apresenta um ripple effect, atingindo pessoas localizadas a distâncias, físicas e psicológicas, cada vez maiores do evento violento.
  
“A DEPT é mais do que um problema de direito próprio: ela gera outros problemas como dependência química; aumento nas intenções crônicas e a co-morbidade. (...) No nosso entender, a DEPT deve ser considerada uma desordem porque o ter sido diagnosticada versus não ter sido divide a população estudada em dois grupos com riscos estatisticamente diferentes de apresentarem outros transtornos e comportamentos não desejáveis, como o suicídio. (...) No nosso entender, a DEPT deve ser considerada uma desordem porque o ter sido diagnosticada versus não ter sido divide a população estudada em dois grupos com riscos estatisticamente diferentes de apresentarem outros transtornos e comportamentos não desejáveis, como o suicídio” (2006, p.48).

Assim, o tipo de morte violenta é relevante para esse quadro: os homicídios provocam reações moderadamente mais intensas, ainda que estatisticamente significativas. Os autores apontam que o poder público pode e deve prevenir as consequências negativas das mortes violentas sobre as vítimas indiretas. Em nosso RN, onde os programas policialescos apenas banalizam a violência, a exposição desnecessária desta é um elemento que apenas amplifica, sem solucionar o problema.

Citações

SOARES, Gláucio Ary Dillon, ET ALI. As vítimas ocultas da violência na cidade do Rio de janeiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

Um comentário:

  1. Interessante artigo, abre a mente de muitos, inclusive a minha, de observar mais atentamente aos fatos criminais e seus principais personagens. No caso descrito, passando de coadjuvantes à atores principais. E, indubitavelmente, as tais ''vítimas ocultas'' precisam de mais atenção da sociedade, para não se criar um efeito dominó, em que uma morte leva a outra e assim por diante.

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