quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Apresentação do livro: "Reflexões Contemporâneas sobre a Qualidade de Vida no Trabalho: Crítica, Concepções e Abordagens"



Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Professor de Sociologia da UFERSA e Consultor em Segurança Pública da OAB/RN.




        O mundo do trabalho é o tema, quiçá, mais abordado das assim chamadas, “ciências humanas e sociais”. Boa parte das áreas do saber que se constituíram ao longo dos últimos 150 anos na área destinada a se debruçar sobre o homem e suas problemáticas lançaram um olhar sobre o capitalismo e as relações geradas por este modo produtor de mercadorias. Destas, a relação entre o Capital e o Trabalho é a mais abundante e significativa.
            Entramos naquilo que muitos cientistas sociais chamam de “conceito chave” para explicação da Modernidade. Esse é o conceito de Trabalho. Categoria basilar desde Karl Marx, pensar o trabalho, suas contradições, sistemáticas, estrutura, psique, etc., foi tarefa hercúlea e constante de ciências jovens como a Sociologia, a Administração, a Psicologia, entre outras.
O homem surgido das entranhas da Revolução Industrial foi obrigado a adaptar-se a um modo de vida e de trabalho bastante diferente daquele no qual seus antepassados viviam. O trabalho fabril e, posteriormente, todos os tipos de atividades estariam sob a ótica de um novo paradigma: controle de atividades (tempo e movimentos), disciplina, permanente exigência de exames e separação das tarefas (exigindo aumento da especialização). Tudo isso terminaria por construir uma relação de trabalho alienada, onde o trabalhador-operário, diferentemente do artesão, não mais se reconheceria no produto de seu esforço laboral.
A própria Revolução Industrial, ao longo de sua longa gestação e fases diversas, terminou trazendo uma série de problemas que afetaram, primordialmente, o trabalhador: longas jornadas de trabalho (de 14 a 16 horas diárias); baixíssimos salários, que mal permitiam o sustento diário; periculosidade extrema, com graves e constantes acidentes de trabalho, que em geral, ou matavam ou mutilavam o operário; inexistência de leis trabalhistas, seguro social ou mesmo aposentadoria garantida; espaço de trabalho insalubres e asfixiantes, quando não muito quentes, extremamente frios na Europa; exploração in extremis do trabalho feminino e infantil, onde estes eram submetidos a salários até 5 vezes menos que os dos homens e adultos, embora realizassem as mesmas tarefas; e, finalmente, o famigerado desemprego estrutural, que levava os trabalhadores a uma dura opção: ou se submetiam a tudo isso, ou amargavam a miséria absoluta e a fome.
Longe de permanecerem passivos, os trabalhadores passaram a lutar por seus direitos e interesses. Essa gama de lutas fez surgir uma série de ideologias e de movimentos que, através do tempo, permitiram a efetivação de uma série de direitos no âmbito do mundo do trabalho. Da publicação do “Manifesto Comunista de 1848” de Marx e Engels, até 1948, 100 anos depois, boa parte das exigências dos trabalhadores já haviam sido conquistadas na Europa e nos países desenvolvidos. No então mundo socialista, isso já era realidade desde a Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, inspirada nas ideias de Marx e Engels.
Importa lembrar que essas conquistas, longe de dádivas empresariais ou estatais, foram o esforço de lutas e batalhas das classes obreiras, assim como o aumento gradativo de participação política, assim como do aumento gradiente do nível educacional. Somados, levaram a uma melhoria constante das condições de vida e de trabalho, ao menos na Europa, EUA e no mundo “desenvolvido”.
Mas, seguindo uma dinâmica constante, o mundo do trabalho não permaneceu imutável. Ao longo do “Breve Século XX”, as formas organizacionais de trabalho passaram por várias mudanças, indo do Taylorismo, passando pelo Fordismo, chegando ao atual “Modelo Flexível” ou, como prefiro chamar, Toyotismo.
O primeiro, também chamado de “Administração Científica”, pautou-se no controle do tempo e dos movimentos do trabalhador, a fim de otimizar as tarefas e aumentar a produtividade. Pela primeira vez, conseguia-se um vertiginoso aumento na produção apenas controlando os movimentos que o operário fazia no processo de fabricação ou manufatura. Se tempo e movimento passaram a ser o eixo central da lógica laboral, essas mudanças terminaram por levar o trabalho à formas de exaustão físicas e mentais ainda não conhecidas.
O segundo modelo trouxe novidades como a linha de produção (a famosa “esteira” fordista) adequada à uma fabricação padronizada e em massa. Foi a época das imensas fábricas e, de certa maneira, dos grandes contingentes sindicais. Período de lutas e conquistas dos trabalhadores por seus direitos. Coincidia com as conquistas do mundo socialista e com o pós II Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, esse contexto levaria à formação do Welfare State, o Estado de Bem-Estar Social, pautado na proteção social e investimentos em saúde, educação, segurança social e empregabilidade.
Finalmente, o terceiro modelo, surgido durante a crise da década de 1970, foi implementado primeiramente nas fábricas japonesas e depois iria, com várias modificações, se impondo nas grandes corporações no mundo desenvolvido. Está ligado à emergência de um modelo oposto ao Welfare State, o Neoliberalismo, centrado na diminuição do papel do Estado nos investimentos sociais. Eis que, é exatamente neste contexto de crise, de diminuição da ação do Estado em várias esferas, de precarização de muitas funções laborais, de terceirizações, subemprego e, talvez a pior praga para quem depende exclusivamente da venda de sua força de trabalho para sobreviver: de desemprego estrutural cada vez mais agudo, emerge a necessidade de se adequar os novos padrões e modelos de trabalho às novas condições econômicas e sociais. Eis o resumo da Ópera.
Isto posto, torna-se claro como esses modelos organizacionais do trabalho e da administração moldaram o século XX e continuam a nos influenciar e a determinar as formas pelas quais processamos, produzimos e construímos nosso mundo. Mais importante ainda, foram e são determinantes não apenas na forma como o Capital constrói sua acumulação, mas a forma como o trabalho é desenvolvido e explorado.
Afinal, do que se trata este livro que tenho a honra de apresentar ao leitor? Trata, efetivamente, do trabalho e de seu mais importante ator: o trabalhador. Ou seja, fala de qualidade do trabalho, questão primordial que sempre esteve presente nas discussões dessa área. Afinal, mesmo com todas as mudanças e conquistas ao longo dos últimos um século e meio, é o trabalho que termina por ocupar a maior parte da vida dos seres humanos. Tratar deste espaço vital é assunto deveras fundamental.
O Brasil, principalmente nos últimos 15 anos, vem assistindo a uma mudança de seu mercado de trabalho e do perfil de seu trabalhador. Assiste-se à ampliação de uma classe trabalhadora, principalmente na base da pirâmide social brasileira, constituída majoritariamente por ocupações no setor de serviços, em decréscimo de setores tradicionais como a indústria. Importa dizer que essas mudanças já vinham sendo sentidas pela Europa e EUA há várias décadas. Apenas agora é que o Brasil e outras nações economicamente periféricas estão passando por elas.
Da mesma forma, enquanto os países economicamente centrais passaram por mudanças nos seus padrões de organização do trabalho, adotando – ao menos em suas grandes empresas – o modelo Toyotista ou “Flexível”, por aqui essas mudanças chegaram bem devagar ou, na maioria dos casos, não chegaram. Principalmente porque, boa parte das organizações brasileiras (pequenas e médias empresas), ainda subsistem no velho padrão taylorista-fordista ou, ainda subsistem em formas tradicionais (e pré-capitalistas) de gestão. Não preciso aprofundar-me demais para pensar em como isso afeta a qualidade de vida do trabalhador. Na maior parte das empresas, faltam estímulos e motivações básicas como: possibilidade de progressão e carreira, premiação por desempenho, ambiente de trabalho estimulante, etc. O trabalhador brasileiro, ampla maioria, labora sob o estímulo da coerção da pura necessidade do salário. Pesquisas sérias já mostraram em como isso termina resultando em absenteísmo, baixa produtividade, doenças laborais e, por último, imensa rotatividade de empregos (nem me refiro aqui à rotatividade causada pela falência da empresa ou pelo desemprego estrutural).
A integração de temas aparentemente díspares como uma abordagem crítica dos modelos organizacionais de trabalho de um lado, e a apresentação sistemática da QVT (Qualidade de Vida no Trabalho) torna-se salutar nas condições nas quais o Brasil e a ampla maioria de suas organizações e empresas se encontram. O tratamento aparentemente eclético dado a esta obra é, portanto, proposital: permite uma visão diversa de um problema que não possui resposta ou caminhos únicos.
Entrando em outra seara, a QVT (Qualidade de Vida no Trabalho) é conceito cada vez mais abordado nos simpósios, colóquios, congressos e eventos que discutem o mundo do trabalho. Afinal, boa parte das doenças adquiridas em nossas vidas estão relacionadas ao ambiente de trabalho ou à atividade laboral exercida. Mais do que isso, insatisfação no trabalho além de doenças físicas, leva constantemente ao mal da modernidade: a depressão. A literatura média está repleta de estudos de casos do gênero. Mas a literatura em geral, assim como o cinema, também têm seus exemplos, onde o homem autômato do trabalho, cansado da vida sem sentido, monótona e repetitiva, explode em ira e revolta, quase sempre violentas.
Temos em mente aquilo que Georg Lukáks denominou de “reificação”, processo pela qual, nas sociedades industriais, o valor (do que quer que seja: pessoas, relações inter-humanas, objetos, instituições) vem apresentar-se à consciência dos homens como valor sobretudo econômico, valor de troca: tudo passa a contar, primariamente, como mercadoria. Ao submetermos as relações humanas à pura lógica da troca econômica, construímos uma verdadeira barbárie relacional.
Esse trabalho reificado não aparece por suas qualidades em si, como trabalho concreto, construidor de vida e de relações, mas como trabalho abstrato, trabalho existente apenas para ser vendido. A sociedade que vive à custa desse mecanismo produz e reproduz, perpetua e apresenta relações sociais como relações entre coisas. O homem fica apagado, é mantido à sombra. Todo o tempo, fica prejudicada a consciência de que a relação entre mercadorias (e a relação entre cargos) é, antes de tudo, uma relação que prevalece sobre a relação entre pessoas.
O trabalho fragmentado termina levando a fragmentação do seu sujeito, o trabalhador. Como consequência do processo de racionalização do trabalho, as propriedades e particularidades humanas do trabalhador aparecem cada vez mais como simples fontes do erro, ou seja, aquilo que é construção do processo de exploração e de reificação, apresenta-se como, por exemplo, ineficiência do trabalhador ou dos processos laborais. O homem não aparece como sujeito desse processo e é incorporado como uma parte da máquina.
Seguindo este raciocínio, o leitor encontrará neste livro o mérito de tentar tratar das várias nuances que o problema pode apresentar. Seja apresentando uma crítica sociológica e fenomenológica ao problema do trabalho e de sua precarização, seja mostrando que, mesmo nas estruturas organizacionais, a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) é, de certa maneira, uma tentativa de buscar uma saída, sem romper com o processo, de humanizar a vertiginosa precarização. Os capítulos desta obra se integram, em suas visões sociológicas e administrativas, para permitir ao leitor uma visão introdutória acadêmica do problema da qualidade do trabalho.

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