quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Formar professores de física: um desafio além dos índices

José Ferreira Júnior, Físico, Mestre e Doutorando em Educação pela UFRN, Professor de Física do IFRN, Campus de Santa Cruz.


Cursei minha graduação na licenciatura em Física na última década do século XX e já ouvia, ao mesmo tempo que constatava naquela época, que faltavam professores de Ciências Naturais nas cidades mais distantes e nas periferias. Eu pretendia cursar Matemática, outra grande paixão, mas um grande amigo me alertou que não havia estudado muito aquele ano e portanto seria mais fácil "passar" em Física já que a concorrência era menor, no entanto, parafraseando um grande sucesso da Sessão da Tarde na época, eu "rezaria" para sair. Do ano de 1997 pra cá, percebemos um grande investimento do governo federal para incentivar a formação de profissionais para a educação científica. Só no Rio Grande do Norte foram abertas centenas de vagas anualmente para contemplar essa formação, da mesma forma em que se multiplicam programas de incentivo à permanência nas licenciaturas e interlocução com a escola pública. Atualmente existem mestrados profissionalizantes na área de Ensino de Ciências (ou especificamente de Física), em nossa capital, que possibilitam aprofundamento da chamada Didática das Ciências. As concepções internacionais de educação básica se transformaram radicalmente nesse período, seguindo uma tendência que já tomava fôlego desde os anos 50, com grande divulgação nos meios de comunicação e de formação. Na condição de professor de Física que trabalhou nas principais redes de educação básica de nosso estado, percebo pouca transferência de toda essa "tecnologia" de ensino para as salas de aula. Mesmo com as mudanças do vestibular da UFRN (desde 1997) e a inclusão do ENEM como principal forma de acesso ao ensino superior, percebo a angústia de muitos professores que não sabem como agir em sala de aula para "acompanhar" essa revolução. Enquanto estão nos seus quadros-negros (ou brancos) chamando uma função horária de "sorvete", afirmando que existem sujeitos na história que são proprietários de Leis e princípios, quando não pais do conhecimento, os super-heróis do intelecto, reproduzem uma ciência distante, que só podem ser entendida por poucos, que nasceram com o dom, ou por outros que resolva exaustivamente a maior quantidade possível de exercícios. Esta visão prejudica o olhar da ciência como parte do patrimônio cultural de um povo, ou mesmo da humanidade e fortalece a ideia de propriedade privada, pertencente aos donos das revistas, comunidades e patentes, que herdaram este conhecimento de Darwin, Newton, Lavoisier, dentre outros. Voltando a licenciatura, o que deve ser ensinado para formar um bom professor? E uma resposta difícil e talvez seja por isso que existe uma grande quantidade de ações baseadas na tentativa e erro e na espontaneidade (estes reproduzem a forma como aprenderam) ou nos modismos didáticos e epistemológicos (esses fazem qualquer coisa diferente de como aprenderam e depois dão um nome bonito). Nesta publicação vou citar o que o pesquisador de origem anglo-saxã Lee S. Shulman, entendia, nos anos 80, como conteúdo a ser aprendido por um professor de Ciências: - Conhecimento do conteúdo - Conhecimento pedagógico geral - Conhecimento curricular - Conhecimento dos estudantes e suas características - Conhecimento do contexto - Conhecimento dos fundamentos, objetivos, fins e valores educacionais - Conhecimento pedagógico do conteúdo O objetivo desta postagem não é discutir a fundo essa questão, no entanto, uma interpretação errada desta proposta, que já foi criticada, recriada e aprofundada nos últimos 30 anos, pode criar cursos cuja metodologia seja a do "esquartejador", ou seja "por partes". Tomando como exemplo alguns cursos de licenciatura, podemos afirmar que foi isso que aconteceu. Algumas disciplinas enfatizam coisas como "prever a equação do tempo de Planck por meio de uma análise dimensional", outras vão trazer à tona a discussão sobre as "teorias da aprendizagem" enquanto um terceiro grupo vão abordar as condições de "demarcação sobre o que é ciência". Esses três exemplos mostram que a Física, a pedagogia e a filosofia têm objetos de estudo bem definidos, no entanto o objeto do ensino de Física, me parece ser outro que devemos ter bem claro. Quando não definimos que objeto é esse e como as situações citadas acima se entrelaçam para se articularem com ele, continuaremos reproduzindo como aprendemos lá no ensino médio, por tentativa e erro, e sem identidade profissional suficiente para saber porque estamos fazendo isso. 
Um abraço à todos.

Um comentário:

  1. Agradeço ao nobre Prof. Thadeu Brandão pelo privilégio de compartilhar minhas ideias desde nossa juventude acadêmica e peço desculpas por lhe enviar um texto ainda não lapidado em relação à norma culta da língua.

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