segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Anatomia dos protestos

Angela Alonso, Socióloga, Doutora em Sociologia é professora livre-docente de sociologia da USP e diretora científica do Cebrap.


Na íntegra, via Valor Econômico.
 
Desde junho difundiu-se uma interpretação dos protestos no Brasil a partir de pares de oposição: sociedade versus Estado, pacíficos versus vândalos. O primeiro par pasteuriza diferenças, como se a sociedade fosse sem clivagens, uníssona "voz das ruas", e ignora que em democracias o governo eleito representa uma parte da sociedade e sofre oposição de outra. A segunda oposição, mantra dos meios de comunicação, separou manifestantes em joio e trigo, atribuindo a violência a atores específicos. Ora, a ação política quase sempre envolve violência, embora certas formas sejam tidas por legítimas (vacinação em massa) e outras por transgressoras (depredar patrimônio público).
Ao iniciar pesquisa sobre os protestos em São Paulo, dei com complexidade bem distante desses estereótipos.
Não se trata de único movimento social, mas de vários, em mobilização consecutiva. O que a sociologia política chama "ciclo de protesto", sequência de manifestações públicas coletivas em escalada, com frequência e intensidade superiores ao rotineiro, que se espalham por diferentes setores da sociedade e recorrem a formas novas de protesto e organização. Desde junho, vemos isto, numerosos eventos de protestos, muitos participantes, grande abrangência geográfica. 
 A esquerda não está mais sozinha nos movimentos de rua
À medida que o ciclo cresce, aderentes agregam pautas e os iniciadores modificam as suas, conforme reações de autoridades e opinião pública. Vê-se nos slogans. Sobressai a incitação ao próprio protesto ("Vem pra rua"), vasta agenda positiva (melhoria de políticas sociais, transporte, saúde, educação) e vaga agenda negativa (crítica às instituições políticas, aos políticos - a corrupção - e à polícia).
Entrevistas desvelam outra heterogeneidade. Os mobilizados são miríade de pequenos movimentos independentes, distribuídos em dois campos. Um é de "autonomistas", grupos formados há vários anos, que planejaram os atos em reuniões presenciais e foram secundados ou levaram de roldão movimentos sociais "tradicionais" e facções de PSTU, PCO, PSOL, etc. Outro campo, declinante agora, é de manifestantes avulsos, sem ativismo prévio, movidos por chamadas da internet ou pelo que viam na imprensa. Estes se aglomeraram em protesto lúdico, sem coordenação ou finalidade para além do ato em si, abrigados sob as bandeiras do nacionalismo e do antipetismo. Embora se digam "apartidários", os dois tipos se dividem conforme a clivagem do sistema político: uns à esquerda, outros à direita do governo, que é do PT. Este é um ponto. Desde a redemocratização, nos acostumamos a movimentos sociais de esquerda. Agora saiu à rua fauna mais eclética.
Há também dois repertórios de formas de ação. De uma parte, cartazes, roupas, bandeiras e pinturas faciais reverberavam símbolos nacionalistas dos movimentos pela redemocratização e pelo impeachment, com seu slogan da "ética na política". De outra, estética punk (o preto), uso de artes (a música, como a da Fanfarra do M.A.L. - Movimento Autonomista Libertário), ações performáticas (queima de catracas, apropriação de espaços midiáticos, como a ponte estaiada), negação da hierarquia de gênero (o x, como em "todxs", a problematiza) e de liderança política, expressa na deliberação por consenso e na troca do carro de som pelo "jogral": a primeira ala grita frases curtas repetidas pelas filas consecutivas até o fim da manifestação. Este segundo repertório tem nome: "autonomista".
E não surgiu nem aqui, nem agora. Condensou-se nos protestos antiglobalização, a partir de Seattle, em 1999. Seus símbolos, slogans e formas de ação são anticapitalistas. Mas não socialistas. Uma de suas matrizes é a contracultura, a defesa de formas de vida econômica e ambientalmente autossustentáveis, comunitárias, anti-hierárquicas e "libertárias" do ponto de vista dos costumes. Nisto, o protesto de hoje ressoa movimentos europeus dos anos 70, de crítica à sociedade de consumo e clamor por democratização das relações interpessoais.
Outra matriz é o anarquismo. Surgido no século XIX, em baixa no XX, voltou no XXI como alternativa ao socialismo. Além de forma de organização política anti-estado, reconhece a violência como método. Anarquistas do século XIX praticaram "magnicídios", assassinatos políticos, como estratégia de visibilidade. Agora se passa o mesmo, trocadas pessoas por objetos. O alvo são símbolos do capitalismo financeiro, os bancos, e da força estatal, a polícia. Esta é a raiz dos black blocs, fenômeno surgido na Alemanha dos anos 80, que alcançou repercussão e emulação mundiais.
Ao contrário do que teima a Rede Globo, não são um grupo - os "baderneiros". Trata-se de uma estratégia. E, como todas as inventadas por movimentos sociais, espalha-se em ciclos de protestos. De fundo das manifestações em junho, praticada por poucos ativistas, a estratégia black bloc entrou velozmente para o repertório político brasileiro. Agora qualquer ativista experiente, até os antes refratários ao uso da força, ou qualquer cidadão inexperiente pode usá-la para exprimir desagrado com o status quo.
A expansão mudou o juízo de mídia e opinião pública. Primeiro vista como desordem, depois como legítima resposta à truculência policial, agora estarrece. Talvez porque a difusão evidenciou seu cerne: a violência como política.
Violência da sociedade, violência do estado, via polícia, o que vem sendo definido como resquício autoritário. É isto, mas é também outra coisa. As forças repressivas, qual os manifestantes, aprendem com experiências alheias. Respostas policiais, com gás lacrimogêneo, spray de pimenta, prisões em massa e cassetetes, como vemos aqui, têm aparecido em protestos mundo afora desde Seattle.
Se serve de consolo, a banalização da violência não é só nossa.

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