quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O "Clássico Rei", as torcidas organizadas e o Estado desorganizado

Marcos Dionisio Medeiros Caldas, Advogado e Presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos e Cidadania/RN


Mais uma vez a cidade respira a antevéspera do que um dia foi o clássico rei. Ao invés de se discutir as opções táticas e as alternativas dos técnicos para o jogo, o que prende a atenção agora é repetida arenga por ingressos e o esforço isolado e solitário da PM em conter a violência das Torcidas Organizadas que muitas vezes se revela em mais violência.
O que antes era só festa, hoje já conta com inúmeras famílias dizimadas emocionalmente pela "violência das Torcidas Organizadas". No Sábado mesmo, centenas de pais , mães e avós ficarão rezando pelo retorno em paz dos seus.
A PM se prepara para conter a Guerra. Uma disputa perdida. Não havendo uma integração e interação entre Polícias, MPE e Judiciário em articulação cívica com os clubes, é enxugar gelo.
Além disso, o volume de recursos humanos e materiais da PM que deveria está sendo utilizado neste período para estancar a maior onda de violência que o RN já presenciou, prende sua atenção no clássico e entorno.
Serão mais diárias atrasadas devidas aos PMs, a utilização das viaturas ainda não bloqueadas pelo locador e a vulnerabilização das comunidades em detrimento da proteção do Clássico.
Quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo, muito se falou em legado. Algum deverá acontecer. O mais fácil e mais possível de ser materializado, seria a depuração das Torcidas Organizadas com a punição dos assassinos e pacificação dos estádios, entorno e comunidades.
Para isso acontecer, deveria ter sido dado sequência ao trabalho do MPE/Judiciário/Polícias, inclusive, pela Inteligência Policial, tão eficiente quando se volta contra os movimentos populares, mapeando grupos, identificando financiadores, roteiros, armas e planos. Infelizmente tal não tem ocorrido.
E a confusão das organizadas continua às vezes nos estádios, entorno, avenidas de acesso e na periferia onde o pau canta todo dia e noite. E também de madrugada. Chegou às escolas e aflora em festas populares e em qualquer aglomeração pública.
Não basta querer proibir as torcidas organizadas. Controlá-las, mapeá-las e dar-lhe transparência talvez fosse mais inteligente e resolutivo.
Também clarear sobre seu funcionamento, financiadores e se há cumplicidade com maus dirigentes. Com maus policiais sabe-se que há. Ainda haveria tempo para se erradicar a violência do futebol brasileiro antes da Copa do Mundo. Basta o Estado nos seus múltiplos atores omissos até aqui, quererem.
Quase todos os times das Séries A e B já passaram por períodos conturbados nesse 2014, sem se falar das mortes que ocorrem longe dos estádios e dos jogos mas sob a égide da violência cultivada em nomes dos clubes por jovens excluídos da visibilidade social e que encontraram na agregação para fins violentos o sentimento de pertença negada pela família, escola, comunidade e a própria sociedade.
É preciso se pacificar o futebol brasileiro como uma condicionante importante para começarmos a reverter a Guerra Civil Brasileira que produz mais de 102000 mortes anualmente por causas externas e violentas.

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