quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A vingança do baixo clero: o desafio ao "PiG" e o estado do conflito cultural no tratamento da crise financeira


Roberto Grün, Professor do Departamento de Engenharia de Produção e pesquisador do Núcleo de Sociologia Econômica e das Finanças da Universidade Federal de São Carlos. 


Introdução 

Em 1986 foi publicado o livro A universidade em ritmo de barbárie (Giannotti 1986) e da sua repercussão começou a ser popularizado o termo "baixo clero" como categoria nativa utilizada nos embates na esfera acadêmica e posteriormente em outras, como na política e na própria Igreja. No seu senso estrito, o termo se refere ao estrato subordinado dos religiosos na hierarquia católica da França do Ancien Régime (Gangneux 1959). O uso da expressão ou correlatos na sua acepção intelectual mais ampla tem uma linhagem já longa, remontando pelo menos a Burke e Voltaire (Chartier 1982). A maneira como foi apropriada, tratada e flexionada no Brasil recente acabou "encantando" os problemas sociológicos nos quais ela se inscreve. Mas esse encantamento tornou ainda mais fascinante os efeitos cruzados da nominação e da reação a ela.1
Sugiro neste texto que a partir dessa discussão podemos encontrar pistas para uma boa explicação da lógica social e das circunstâncias em que os governos federais petistas tiveram algum sucesso, apesar da crítica cerrada dos órgãos de comunicação e de boa parte das elites culturais do país. Esses governos foram formados em grande parte por indivíduos que poderiam ser catalogados como do baixo clero intelectual e político, e o sucesso pode ser medido objetivamente pela reeleição de Lula e mais ainda pela eleição de Dilma em 2010. Para aqueles que o apoiam, podemos enumerar entre suas consequências o fato de ter alterado dados que pareciam "naturais" da sociedade brasileira, como a impossibilidade de políticas redistributivas diretas eficientes e diversas formas de inclusão social e de aumento do nível de bem-estar dos grupos subalternos através de políticas estatais ativas. E, principalmente, o Estado brasileiro se tornou maior e passou a ser considerado mais eficiente num quadro dóxico internacional totalmente avesso a esse tipo de inflexão, que faz enxergar como óbvia, justa e correta a tendência exatamente oposta àquela que por aqui observamos (IPEA 10/2011). A partir da crise financeira deflagrada em 2008, a oposição à tendência internacional ficou ainda mais aguda e evidente e podemos então dizer que aconteceu uma mudança importante e contraintuitiva que merece um esforço sociológico para lhe dar inteligibilidade.
Uma boa pista fenomenológica, que se torna operacional para começar a explicar esse sucesso, está no desfazimento de um traço essencial da ação ideológica dita "neoliberal", que é a separação absoluta entre realidade econômica e realidade social. O predomínio da razão financeira que se extrai do chamado "fundamentalismo de mercado" tem neste princípio uma das suas principais âncoras, que deflagra as sequências automáticas de significado que produzem o bom senso imperante no espaço em que ela domina. Interromper essa cadeia mnemônica que, como mostra a crise financeira internacional, é uma das associações cognitivas mais fortes da contemporaneidade, é um feito que demonstra uma enorme vitalidade no eixo da imposição e da rejeição de arbitrários culturais.

Para ler o restante do artigo, na íntegra, clique AQUI.

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