Sobre o autor


Thadeu de Sousa Brandão

Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor Adjunto de Sociologia da UFERSA e do Mestrado Acadêmico Interdisciplinar em "Cognição, Tecnologias e Instituições" (CCSAH/UFERSA) - (Nota 4 CAPES). Líder do grupo de Pesquisa "Observatório da Violência do RN". Autor de "Atrás das Grades: habitus e interação social no sistema prisional", "A Senhora do Sertão: a Festa de Sant'Ana de Caicó" e co-autor de "Rastros de Pólvora: Metadados 2015" e de "Observatório Potiguar 2016: Mapa da Violência do RN". Apresentador do Programa Observador Político da TV Mossoró e 93FM. Colunista do Jornal O Mossoroense.

Política, Sociologia, Ciência, Cultura e Filosofia. Blog criado em 22 de Outubro de 2012 e organizado por Thadeu de Sousa Brandão.

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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Como a Padroeira chegou


Texto integral de Luís da Câmara Cascudo, extraído de: História da Cidade do Natal, capítulo 14.




"Nossa Senhora da Apresentação, no seu bento vulto, chegou à cidade do Natal numa quarta-feira, 21 de novembro de 1753.

1753 ou 1736? Não há documento dirimindo a questão. Existe tradição oral, narrando o episódio e memórias velhas apontando datas, desacompanhadas dos comprovantes. Dois grandes sabedores da história natalense, Joaquim Lourival Soares da Câmara, Panqueca, 1849-1926, e Francisco Gomes de Albuquerque e Silva, Chico Bilro, 1858-1931, diziam que a padroeira chegara em anos bem diversos. 1753 para Panqueca, a data mais popular. 1736 para Chico Bilro.
De qualquer forma, o vigário da freguesia (Natal já era freguesia em 1601) era o padre doutor Manuel Correia Gomes, que faleceu a 4 de agosto de 1760, com 68 anos, e firme no pastoreio.
O capitão-mor governador do Rio Grande do Norte chamava-se Pedro de Albuquerque Melo. Reinava em Portugal el-rei dom José e no Brasil o sexto vice-rei, dom Luís Peregrino de Ataíde, décimo conde de Atouguia.
Nessa manhã de 21 de novembro, sexta-feira, dia santo por ser o da invocação da padroeira, quem passeava à margem do Potengi, ladeando a barranca vermelha onde se aprumava o casario humilde, enxergou, encalhado numa pedra no meio do rio, um caixãozinho de madeira, alcatroado.
Podia ser um salvado de naufrágio e, depressa remaram numa baixeira para a pedra que fica alguns metros da praia. Enquanto iam salvar o caixote crescera o número de desocupados e curiosos. O caixão viera, depositado n'areia e aberto logo, na ânsia de ver o tesouro.
Encontraram uma imagem, de tamanho médio, uns cinquenta a sessenta centímetros, bem encarnada e vistosa na pintura nova e viva. Trazia Menino-Deus no braço e estendia a mão, como se segurasse invisível objeto.
— É uma Nossa Senhora do Rosário!...
A pedra, onde o caixote ancorou, ainda conserva o nome. É a pedra do Rosário. Fica na confrontação da Igreja do Rosário. Uma autorização de gente prática cedeu a pedra para que passasse um oleoduto para um depósito flutuante que pertenceu à Companhia Air France. Meio quebrada, sustentando o cano negro, a Pedra do Rosário é visitada pêlos raros sabedores de sua ilustre tradição.
O padre Correia Gomes, chamado, correu à praia e levou o vulto para a igreja matriz.
Não havia Igreja de Santo Antônio nem o Bom Jesus da Ribeira. Teria a cidade umas cem casas, de taipa, cobertas em sua maioria com palhas. Raras com tijolos e telhas. A Ribeira era região de sítios de coqueiros, com espaçadíssimas casinhas.
A imagem foi mostrada ao grave Senado da Câmara e a mão do secretário tomou por termo o achamento e o mais que se passou. Este documento ainda foi lido na primeira década do século XX. Depois desapareceu...
No caixãozinho ou numa faixa, envolvendo o vulto, lia-se: - No ponto onde der este caixão não haverá nenhum perigo (Panqueca). Onde esta Santa parar nenhuma desgraça acontecerá (Chico Bilro). Há outras versões. Todas no mesmo sentido.
Quando a imagem chegou, a freguesia já era votada a Nossa Senhora da Apresentação. Parece, ao deduzir-se pelas descrições de frei Agostinho de Santa Maria ("Santuário Mariano, a história das imagens milagrosas de Nossa Senhora, e milagrosamente manifestadas, e aparecidas em o Arcebispado da Baía, e mais bispados; de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande, Maranhão & Grão Pará", Lisboa, 1722, tomo IX, título XLII) que não havia imagem na matriz. "Na capela -mor daquela Matriz se colocou pouco depois um grande, e formoso quadro de pintura, em que se vê o mesmo mistério da Senhora historiado... A sua festividade se lhe celebra em 21 de novembro, que é o dia, em que a Senhora foi oferecida ao Senhor da Glória"; (354). Frei Agostinho, que andara sumariando as imagens aparecidas não registrou, em 1722, a nossa que bem expressiva seria para o assunto do seu cartapácio. A tradição local, evidentemente, é posterior a 1722. A imagem, no seu nicho do altar-mor da catedral, dirá, pelo aspecto, planejamento, disposição do manto, cores (que vêm sendo mantidas através de centros de reencarnações), coroa, modelagem, ser trabalho do século XVIII, barroca, tão deliciosa e típica nos imaginários da época.
O vigário Correia Gomes deve ter pedido ao bispo de Pernambuco licença para a bênção e entronização do vulto de Nossa Senhora do Rosário que se apresentara para substituir o quadro representando a Ficou sendo Nossa Senhora d' Apresentação no vulto da Senhora do Rosário.
Há duzentos anos que Nossa Senhora, espontaneamente, procurou a cidade e foi sagrada padroeira. Pastora, achou seu rebanho e o guiará serenamente para Deus. Só mesmo Nossa Senhora tem essa paciência..."

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