Sobre o autor


Thadeu de Sousa Brandão

Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor Adjunto de Sociologia da UFERSA e do Mestrado Acadêmico Interdisciplinar em "Cognição, Tecnologias e Instituições" (CCSAH/UFERSA) - (Nota 4 CAPES). Líder do grupo de Pesquisa "Observatório da Violência do RN". Autor de "Atrás das Grades: habitus e interação social no sistema prisional", "A Senhora do Sertão: a Festa de Sant'Ana de Caicó" e co-autor de "Rastros de Pólvora: Metadados 2015" e de "Observatório Potiguar 2016: Mapa da Violência do RN". Apresentador do Programa Observador Político da TV Mossoró e 93FM. Colunista do Jornal O Mossoroense.

Política, Sociologia, Ciência, Cultura e Filosofia. Blog criado em 22 de Outubro de 2012 e organizado por Thadeu de Sousa Brandão.

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domingo, 8 de dezembro de 2013

Acerca da violência nos estádios de futebol e algumas digressões

Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Professor de Sociologia da UFERSA e Consultor de Segurança Pública da OAB/RN.


Somos um povo pacífico e ordeiro. Uma nação cordial e bonita por natureza. Somos um país de pessoas que amam o carnaval e futebol. 
Todas as frases acima, ditas sem aspas, já foram ditas por alguém em algum contexto dado nas últimas seis décadas, pelo menos. Se estamos diante de uma inverdade histórica, já que as várias rebeliões, motins, crises, golpes e guerras civis localizadas, além do fato das guerras oficiais já travadas, nos apontam como um povo belicoso e com um gradiente de violência sempre presente. Não quer história? Acha que é passado? Basta mostrar nossas altas taxas de violência, homicida, de trânsito, contra as mulheres... Estamos, juntamente com nações em guerra civil, entre os primeiros colocados em mortes violentas e estupros. Somos realmente pacíficos.
O futebol, nosso esporte-mor, nossa glória e orgulho sem par, vem se tornando, ao menos na última década, uma dos espaços onde a ferocidade urbana brasileira, a barbárie sem par de parte de nossos jovens é expressada. Na forma de torcidas organizadas, gangues de jovens, som status social negativo, criados em ambientes de violência e desigualdade, reproduzem verdadeiras arenas romanas, com o trágico desfecho da morte de outros jovens, iguaizinhos aos algozes.
Violência sem ideologia política, sem radicalismo religioso, sem fundamentalismo algum que o apoie, senão o do "time" amado, gerido por entes privados e com absolutos fins lucrativos. O amos ao time é expresso coletivamente no grupo, onde a identidade juvenil se pauta na violência, onde os ritos de passagem (Bourdieu chamaria de "ritos de instituição") baseiam-se em praticar violência, sair ferido, com a marca do "guerreiro da torcida", fiel, urubu, ou qualquer coisa do tipo. 
Trata-se, sim de uma estrondosa minoria, mas, sua capacidade aglutinadora, principalmente nas periferias e nos espaços marginalizados é salutar. Violência e ódio aglutinam sim. A história nos mostrou que os movimentos fascistas e nazistas eram compostos de jovens sem muita esperança no futuro. A diferença é que esse ódio, na época, era voltado para os fins políticos dos movimentos totalitários. O ódio agora é irracional. Não tem finalidade e, por isso, atinge qualquer um.
Como respondemos? Não respondemos. Nos manifestamos na hora, vociferando contra o Estado ou contra as autoridades do momento. Depois esquecemos. Vamos assistir nosso MMA, nossa luta noturna higienizada e globalizada. Viva a porrada! Afinal, é só um esporte!!! Ninguém morre ou se machuca.
Não é preciso ser psicólogo ou neurocientista para saber o que causa ao caráter individual tanta exposição de violência. Já vemos isso nos nossos estádios. Estou pondo a culpa no MMA? Não tolinho. Apenas aponto que nossa cultura de ode à violência não é gratuita e nem mesmo inocente.
Não apontarei culpados momentâneos ou mesmo os de sempre. Sabemos como fazer. Mas, nossos monstros da violência no futebol não são exceções. São parte da regra. No trânsito, nas ruas, nos lares, nas escolas, nas instituições, em todos os lugares, remedo-nos à barbárie da violência. Precisamos de uma profunda e radical mudança em nosso processo civilizador. Antes que seja muito tarde para mudar.

Um comentário:

  1. Prezado Thadeu, me pareceu que o seu artigo se resume à seguinte tese: "O ódio agora é irracional. Não tem finalidade e, por isso, atinge qualquer um."

    Primeiro, não suponho que exista algum tipo de ódio "racional"; em segundo lugar, nenhuma expressão de ódio é gratuita, pois que ou se dirige contra o próprio agressor ou contra um outro alguém; e, finalmente, dizer que uma expressão de ódio "atinge qualquer um" me parece uma redundância, uma vez que ela sempre há de atingir alguém, nem que seja o próprio agressor, seja simbólica ou fisicamente. Não sou, obviamente, um especialista em violência como você, que na condição de professor universitário e pesquisador do assunto o é, mas acho que a questão da violência nos campos de futebol está muito associada à um luta pelos espaços masculinos agora ocupados pelas mulheres no mercado de trabalho. Me parece uma transubstanciação da competição pelos postos de liderança nos espaços produtivos - outrora, ocupados predominantemente por homens - na violência nos estádios - espaços predominantemente masculinos, onde eles podem exercitar "livremente" a sua masculinidade na demarcação de territórios tribais.

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