Sobre o autor


Thadeu de Sousa Brandão

Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor Adjunto de Sociologia da UFERSA e do Mestrado Acadêmico Interdisciplinar em "Cognição, Tecnologias e Instituições" (CCSAH/UFERSA) - (Nota 4 CAPES). Líder do grupo de Pesquisa "Observatório da Violência do RN". Autor de "Atrás das Grades: habitus e interação social no sistema prisional", "A Senhora do Sertão: a Festa de Sant'Ana de Caicó" e co-autor de "Rastros de Pólvora: Metadados 2015" e de "Observatório Potiguar 2016: Mapa da Violência do RN". Apresentador do Programa Observador Político da TV Mossoró e 93FM. Colunista do Jornal O Mossoroense.

Política, Sociologia, Ciência, Cultura e Filosofia. Blog criado em 22 de Outubro de 2012 e organizado por Thadeu de Sousa Brandão.

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quarta-feira, 19 de março de 2014

As Marchas da Família com Deus pela Liberdade. 50 anos depois. Entrevista com Aline Pressot


Na íntegra, via UNISINOS.

Aline Pressot é mestre em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.


“As Marchas contribuíram na construção de um discurso legitimador do golpe civil-militar, segundo o qual ele representaria um desejo da sociedade civil”, diz a historiadora.
                                                                       Foto: Educação Uol
A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que ocorreu no dia 19 de março de 1964, surgiu como uma reação ao discurso do ex-presidente João Goulart, na Central do Brasil na semana anterior, e “como uma espécie de pedido às Forças Armadas por uma intervenção ‘salvadora das instituições’, e, posteriormente ao 31 de março de 1964, passou por uma ressignificação de seu discurso, transformando-se numa demonstração de legitimação do golpe civil-militar”, relembra Aline Pressot, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail.
A historiadora explica que, à época, alguns setores da sociedade acreditavam que o governo Jango “caminhava para o comunismo e a consequente destruição dos valores religiosos, patrióticos e morais da sociedade”, porque suas propostas de reformas de base tiveram adesão de vários partidos de esquerda.
Segundo ela, a associação do ex-presidente com o comunismo também “remonta a sua atuação no governo Vargas, no Ministério do Trabalho, sempre lembrada pelo anúncio do aumento de 100% do salário mínimo. Ele era visto por parte das elites como herdeiro político do getulismo. Essa herança política, somada à sua ligação com os sindicatos, faziam com que fosse considerado ‘esquerdista’. As viagens que realizou à China e à URSS acabaram por reforçar essa imagem”. E acrescenta: “Desse modo, as propostas reformistas passaram a ser identificadas com o comunismo e o governo, acusado de tramar um golpe de tendência esquerdista e transformar o Brasil numa ‘República Sindicalista’”.
A Marcha perdeu força ainda em meados dos anos 1970, mas um grupo de Fortaleza pretende reeditá-la no próximo sábado, 22 de março. Pelas redes sociais, internautas combinam uma passeata pacífica pedindo a intervenção militar para evitar um golpe comunista no país. Aline Pressot diz que a “tentativa de uma análise mais aprofundada soaria arriscada”. Entretanto, assinala, “chama a atenção o fato de que um movimento, que mesmo durante os anos do regime militar passou por um processo de ‘esquecimento’, venha a ser reeditado 50 anos depois o golpe. Elas me parecem o sintoma de uma sociedade que ainda não se reconciliou com a memória do período da ditadura. E evidenciam que o processo de transição ainda espera por ser concluído”.
Aline Pressot é mestre em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.
                        Fonte: Historiativa Net

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que foi a Marcha da Família com Deus pela Liberdade? De quem foi a iniciativa de realizá-la e em que contexto ela aconteceu?
Aline Pressot - As Marchas da Família com Deus pela Liberdade podem ser compreendidas como um movimento que se constituiu em uma série de manifestações, ocorridas entre os meses de março e junho de 1964. Enquanto fenômeno social, as Marchas inserem-se em um momento em que diversificados setores da população saíram às ruas em protesto ao governo de João Goulart, que, segundo acreditavam, caminhava para o comunismo e a consequente destruição dos valores religiosos, patrióticos e morais da sociedade. Tais passeatas surgiram como uma espécie de pedido às Forças Armadas por uma intervenção “salvadora das instituições”, e, posteriormente ao 31 de março de 1964, passaram por uma ressignificação de seu discurso, transformando-se numa demonstração de legitimação do golpe civil-militar.
A primeira Marcha ocorreu em São Paulo, no dia 19 de março de 1964, como uma resposta ao Comício da Central, realizado no dia 13, ocasião em que o então presidente João Goulart assinou alguns importantes decretos referentes às Reformas de Base.
As Marchas contaram, em sua organização, com o patrocínio e financiamento de empresários reunidos no grupo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais - Ipês, representantes da ala mais tradicional da Igreja Católica, segmentos do conservadorismo político, além de militares e da expressiva presença dos grupos femininos, como a Campanha da Mulher pela Democracia - Camde do Rio de Janeiro, e União Cívica Feminina - UCF de São Paulo.  
Versões
Existem algumas versões a respeito da idealização da primeira Marcha da Família, mas todas elas convergem ao delegar à irmã Ana de Lurdes (Lucília Batista Pereira, neta de Rui Barbosa) a criação de um Movimento de Desagravo ao Rosário, que deu origem às Marchas.
O Deputado Cunha Bueno (PSD) teria se indignado com o discurso proferido por Goulart na Central do Brasil e, reunindo-se com a irmã, teria recebido a sugestão e partido naquela mesma noite para os preparativos da Marcha paulista. A data da manifestação foi também escolhida segundo suas diretrizes: 19 de março, dia de São José, padroeiro da família e da Igreja Universal (posteriormente, com o objetivo de “universalizar” o apelo ideológico e conferir um caráter ecumênico à manifestação, que a “Marcha em Desagravo ao Rosário” se transformara em “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”).
Tratava-se de uma “campanha de desestabilização” do governo João Goulart, em curso desde fins de 1961, empreendida por segmentos conservadores da sociedade que vinham, há alguns anos, denunciando a iminência do “perigo comunista” sobre o país. Esses grupos temiam as supostas tendências esquerdistas do presidente e perceberam que aquele seria o momento de intensificar seu trabalho junto à opinião pública.

Para ler o restante da entrevista, clique AQUI.



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