segunda-feira, 17 de março de 2014

Medos e representações de (in)segurança

Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Professor de Sociologia da UFERSA e Consultor de Segurança Pública da OAB/Mossoró.




Há uma relação intangível e totalmente subjetiva entre a realidade daquilo que denominamos de "segurança pública" e nossas representações sobre ela. Neste espaço entre ambas, temos um medo presente, social, cultural e eminentemente, por isso, coletivo. O medo sempre desempenhou um papel capital na história das sociedades humanas. Afinal, em quase todas as épocas, os heróis são aqueles que não possuem medo, dotados de coragem extrema: dos cavaleiros, guerreiros aos mais intrépidos "super-heróis" da Indústria Cultural hodierna. 
Afinal, citando Jean Delumeau:

“A necessidade de segurança é portanto fundamental; está na base da afetividade e da moral humanas. A insegurança é símbolo de morte e a segurança símbolo de vida. O companheiro, o anjo da guarda, o amigo, o ser benéfico é sempre aquele que difunde a segurança. (...) O animal não antecipa sua morte. O homem, ao contrário, sabe – muito cedo – que morrerá. É, pois, o ‘único no mundo a conhecer o medo num grau tão temível e duradouro’” (DELUMEAU, 1989, p. 19).

Nenhuma sociedade manifestou tão amplamente as mais variadas formas de medo do que a contemporânea.  Medos impostos sobre as formas mais variadas, expressa-se até mesmo na economia, onde os movimentos das Bolsas de Valores, "não conhecem afinal senão uma regra: "a alternância de esperanças imoderadas e de medos irrefletidos”.
O medo, nesta perspectiva, seria o hábito que se possui, em um grupo humano, de temer tal ou tal ameaça (real ou imaginária). Sob a modernidade pairam as mais variadas formas, principalmente o temor, o espanto, o pavor e o terror, que dizem mais respeito ao medo. Noutra perspectiva, acompanham também a inquietação, a ansiedade, a melancolia, ligadas à angústia. O primeiro - medo -  refere-se ao conhecido; a segunda (angústia), ao desconhecido. "O medo tem um objeto determinado ao qual se pode fazer frente. A angústia não o tem e é vivida como uma espera dolorosa diante de um perigo tanto mais temível quanto menos claramente identificado: é um sentimento global de insegurança. Desse modo, ela é mais difícil de suportar do que o medo” (DELUMEAU, 1989, p. 25).
Para nós, viventes do século XXI, a angústia tornou-se a característica da condição humana e o peculiar de um ser que se cria incessantemente. Nossa febre por remédios controlados, drogas, álcool e outras formas de fuga, caracterizam essa caminhada para a angústia e o medo. Neste limiar, não é a toa que temos na depressão, o mal-estar de nossa civilização.
O maior efeito do medo da violência é a forma como o objetivamos. Eis nossa fixação por programas policiais na TV, por imagens de tragédias reproduzidas e tão avidamente vistas. Curtimos a morte e a violência para poder exorcizá-la? Ou seria apenas uma amostra de nossa impotência diante da paralizia que o medo nos reporta?
Paramos para ver acidentes e pessoas esfaceladas. Vibramos com guerras e ações militares. Ao mesmo tempo, somos paralisados pelo nosso dia-a-dia, nos trancando em condomínios, grades e sistemas de segurança. Compramos armas para nos sentirmos mais seguros...  Na realidade, estamos presos à uma sistemática cultural do medo. A quem isso serve? Não é a liberdade, com certeza.

Obra citada


DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente (1300-1800): uma cidade sitiada. Tradução de Maria Lucia Machado. Tradução das notas de Heloisa Jahn. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observatório da Violência do RN lança Mapa da Violência 2017

O OBVIO - Observatório da Violência, em parceria com a Comissão de Segurança Pública da OAB, convida estudiosos e autoridades da área de...