Sobre o autor


Thadeu de Sousa Brandão

Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor Adjunto de Sociologia da UFERSA e do Mestrado Acadêmico Interdisciplinar em "Cognição, Tecnologias e Instituições" (CCSAH/UFERSA) - (Nota 4 CAPES). Líder do grupo de Pesquisa "Observatório da Violência do RN". Autor de "Atrás das Grades: habitus e interação social no sistema prisional", "A Senhora do Sertão: a Festa de Sant'Ana de Caicó" e co-autor de "Rastros de Pólvora: Metadados 2015" e de "Observatório Potiguar 2016: Mapa da Violência do RN". Apresentador do Programa Observador Político da TV Mossoró e 93FM. Colunista do Jornal O Mossoroense.

Política, Sociologia, Ciência, Cultura e Filosofia. Blog criado em 22 de Outubro de 2012 e organizado por Thadeu de Sousa Brandão.

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sexta-feira, 28 de março de 2014

O 31 de Março de 1964: reflexões (1)

Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais e Professor de Sociologia da UFERSA.


Nesta segunda-feira, o Brasil lembrará daquele fatídico 31 de março de 1964. Naquele dia, o país mergulhou no mais longo período ditatorial de sua história republicana. Considerando os períodos de estado de sítio durante a República Velha e a própria Era Vargas, com suas intersecções democráticas e o tenebroso Estado Novo, o chamado Regime Militar (ou Ditadura Militar) é, de longe, o mais longevo.
Não foi inteiramente militar. O apoio civil, notadamente da aristocracia rural, velha elite temerosa (até hoje) de uma reforma agrária, juntamente com setores da burguesia nacional, fundamentaram a base sócio-econômica do golpe.
A conjuntura externa - com a Guerra Fria - foi um fator decisivo. Afinal, sem a articulação dos EUA e seu apoio, inclusive militar, não haveria condições de se efetivar um golpe vitorioso. O medo, então, era do Brasil tornar-se uma "nova Cuba", ou seja, partisse para algum tipo de revolução socialista. Os EUA interviriam em quase todas as nações da América do Sul e Central, assim como na África e em alguns rincões da Ásia. Perpetuar a liberdade e a democracia? Claro que não. O interesse era manter intacta suas áreas de influência, como mostram hoje os documentos do governo americano, finalmente abertos aos historiadores. Um parênteses: não foi da Secretaria de Estado dos EUA ou da CIA que o golpe foi gestado. Mas, de sua Câmara de Comércio. Se isso não falar por si mesmo...
Vivíamos o governo Goulart, de cunho populista, atacado pela direita raivosa (vide Lacerda) e pela esquerda garroteada pelo Comintern (vide PCB). Goulart, que de comunista nada tinha, apoiava-se no movimento sindical e em setores populares e camponeses. Bastou isso para a alcunha de comuna. Grande latifundiário, queria fazer uma ampla reforma agrária.
Os ânimos foram se acirrando paulatinamente. Alguns historiadores apontam que a forma de enfrentamento do presidente levou a isso. Duvido muito. Afinal, mal assumiu em 1961 e foi-lhe imputado o golpe parlamentarista. Voltando ao presidencialismo, as tentativas de golpe se sucederam. 
A tradição golpista no Brasil é tão antiga quanto à República. Nascida de um golpe militar, estes se sucederiam tempos em tempos. O que agudizou o processo foi, com certeza, o tenentismo, movimento que culminou em 1964. A base sólida do Regime Militar eram de ex-tenentes. Principalmente a base nacionalista, pautada na ESG (Escola Superior de Guerra) e a turma da "Sorbonne", como eram chamados os mais afeitos à pensar o país. A indisciplina militar, coisa quase inexistente em países democráticos e com tradição constitucional sólida, como os EUA, sempre foi um apanágio da América Latina. Nosso processo foi longo.
O golpe veio e poderia ter sido evitado. Uma parte da caserna, apesar da outra parte em ebulição, era disciplinada e respeitava o poder constituído. Mas, como lembrou o velho Marx, "os homens não fazem a história como querem, mas nas condições que lhes são dadas". O golpe veio rápido e sem sangue. O regime que afirmava ser temporário, duraria uma longa noite de 21 anos.
A receita sócio-política do golpe: uma classe média e elites conservadoras, uma elite agrária presa ao século XIX, uma caserna indisciplinada, um governo populista e afeito às grandes ações dramáticas, um contexto internacional de acirramento ideológico e forte presença intervencionista norte-americana. Junte tudo isso e apimente com uma mídia que foi comprometida com o golpe até a medula, e o prato está pronto. Uma ampla conjuntura, acrescida de crise econômica e inflação crescente. 
Quando ouço e leio sobre um possível novo golpe, lembro desses fatores em conjunto. Quase nenhum deles é visível ou existente hoje em dia. Mas, aprender com o passado, além de uma questão de memória, é possibilitar que os erros antanhos não se tornem erros vindouros.

Um comentário:

  1. A mídia continua atuando da mesma maneira desde os tempos da república velha, defendendo doutrinas conservadoras, direitistas e desumanas. A desonestidade e a parcialidade com que as notícias são transmitidas é espantosa. De um tempo pra cá eu parei de assistir aos canais convencionais de mídia, as chamadas "mídias de massa", e passei a acompanhar somente a mídia alternativa. É como se você assistisse ontem um jogo do Grêmio vs Inter que foi 3x0 e alguem te dissesse que o jogo foi de vôlei, mês passado, entre flamengo e vasco e que foi 2x1. A mentira passa dos limites da realidade, e o monopólio da mentira reflete hoje e sempre refletiu no comportamento da sociedade.

    Que tipo de sociedade votaria em candidatos determinados a aplicarem medidas antipopulares, que seriam prejudiciais a própria sociedade? Basta ler os jornais e revistas que você também irá votar neles. E quando se consegue condições de mudar um país, os EUA e as elites nacionais e internacionais usam da morte, das invasões e das guerras para manter o povo marginalizado e dominado, usam do "bastão do povo" para mantê-lo na linha. É lamentável.

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