Sobre o autor


Thadeu de Sousa Brandão

Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor Adjunto de Sociologia da UFERSA e do Mestrado Acadêmico Interdisciplinar em "Cognição, Tecnologias e Instituições" (CCSAH/UFERSA) - (Nota 4 CAPES). Líder do grupo de Pesquisa "Observatório da Violência do RN". Autor de "Atrás das Grades: habitus e interação social no sistema prisional", "A Senhora do Sertão: a Festa de Sant'Ana de Caicó" e co-autor de "Rastros de Pólvora: Metadados 2015" e de "Observatório Potiguar 2016: Mapa da Violência do RN". Apresentador do Programa Observador Político da TV Mossoró e 93FM. Colunista do Jornal O Mossoroense.

Política, Sociologia, Ciência, Cultura e Filosofia. Blog criado em 22 de Outubro de 2012 e organizado por Thadeu de Sousa Brandão.

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quarta-feira, 19 de março de 2014

Sertão de pedra, chuva e pó

Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais e Professor de Sociologia da UFERSA.


Mossoró está inserida no Sertão do Oeste Potiguar. Sertão com todas as suas representações e facetas. Sertão árido e pedregoso. Pó e pedra, sol e calor. “Uma paisagem impressionadora, como disse Euclides da Cunha. O martírio da terra, a secura do ar, a rudeza do homem. Eis as expressões cunhadas pela visão do cronista. Nos leitos dos rios, já secos, esparramam-se oásis verdes, pontos de descanso e vida. Onde o homem e os animais aconchegam-se e descansam. Onde matam sua sede com a pouca, rala e suja água que há. Quando há.

É a capacidade ancestralmente imputada nas representações coletivas de que o sertão é a terra da adversidade e da rudeza. Mas é do deserto que brota a riqueza, e esta riqueza maior é o homem. A bíblia está cheia dessas representações. Assim como Moisés retirou água do rochedo (Ex 17, 1-7), destas pedras deverá brotar a vida apesar de tudo. A pedra é o alicerce seguro pelo qual algo pode ser edificado. Assim, Jesus conclama: “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). Pedra que cria, que eterniza.  É a terra que eterniza a mais antiga das maldições:  



Maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e em pó te hás de tornar (Gn 3, 18-19).



E o homem é fruto da maldição da terra porque ele é pó, ele também é pedra. Mas o lamento do homem sertanejo deve chegar até o céu porque Deus, que também é rocha, que também é pedra, deve escutar o lamento do sofredor: “só em Deus repousa minha alma, só dele vem a salvação. Só ele é meu rochedo, minha salvação, minha fortaleza” (Sl 61, 2-3).

Apesar de tudo o sertão é a Terra Prometida. É a terra para onde se volta e onde se encontra a raiz do homem. É a terra onde a água é a preocupação central. Onde tudo gira em torno da água. Onde uma bênção para um homem é “como uma chuva”, algo maravilhoso. A água que simboliza a soma universal das virtualidades; ela é fons et origo, o reservatório de todas as possibilidades de existência; ela precede toda a forma e suporta toda a criação.

No inverno é o momento da revitalização da terra. Imediatamente a vida volta a brotar onde ela, aparentemente, deixara de apresentar-se. Com o inverno, vem as esperanças do sertanejo, esperança de poder sobreviver sem ter de deixar seu pó. Revitalizam-se os umbuzeiros, faveleiras, juazeiros, algarobas e juremas, revitaliza-se a flora e a fauna. Flores do sertão. Bichos do sertão. Euclides da Cunha chega a conclusão de que “o sertão é um paraíso”. Sua ressurreição das cinzas o faz uma verdadeira Fênix. 

Nas secas, esta “terra que Hegel não citou”, morre novamente. Suas manhãs, espetáculos para os olhos e para a alma, tornam-se mais quentes e seus dias maiores. Seca-se tudo, águas, animais e homens. Inicia-se o martírio secular da terra. “O martírio do homem, ali, é o reflexo da tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da vida” (Euclides da Cunha). O homem ali é forte, pois o sertanejo é um forte, antes de tudo.

Viva São José, Viva a revitalização do Sertão!!! 


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