sábado, 29 de março de 2014

Sobre perdão e reconciliação

Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais e Professor de Sociologia da UFERSA.


Estamos no período em que as Igrejas Católicas (Romana, Ortodoxa, Anglicana, Síriaca, Copta, etc.) denominam de Quaresma, quarenta dias que antecedem a Páscoa Cristã e que relembram os quarenta dias de preparação de Cristo no deserto. Tempo, portanto, de preparação e reflexão, de reconciliação e perdão, inclusive consigo mesmo.
Isso nos remete a pensar, em uma contemporaneidade marcada pela violência, pelo fetichismo e pelo individualismo possessivo, no perdão. O perdão está intimamente ligado à reconciliação. Refere-se à culpa e sua palavra significa uma ativa remissão e libertação dessa mesma culpa. Perdoar é libertar-se da culpa. Reconciliar, por sua vez, é tentar aproximar-se do outro, daquele (s) que julgamos ser a causa da mágoa, rancor, ferida ou ódio causados. 
Não há receita pronta para o processo de perdão e reconciliação. Judeus e palestinos, por exemplo, estão longe de perdoar-se e recomeçar um novo caminho de conciliação. São educados, desde a tenra infância, a agir mutuamente de forma a magoarem-se, vilipendiarem-se, agredir-se. Sem perdão e sua consequente reconciliação, o caminho da violência não tem como deixar de ser trilhado. A violência torna-se a consequência triunfal da falta de perdão.
Santo Agostinho, Bispo de Hipona, maior sintetizador e sistematizador teológico do cristianismo, reconstruiu a máxima de Jesus de que os maiores mandamentos eram: amar a Deus e ao próximo. Ele afirmou: "Ama e fazes o que quiseres". Pois, quem ama, só pode praticar o bem. Pois é pelo amor que podemos reunir os vários elementos que trazemos dentro de nós. Primeiro, aceitando-nos como somos, compreendendo-nos. Se nos conhecemos, podemos nos perdoar. Se nos perdoamos, podemos perdoar também ao outro. 
Hannah Arendt, filósofa alemã, afirmou que o grande problema do Mal em nossos dias é que ele se banaliza em atos corriqueiros e cotidianos. O Mal é banal porque praticamos o mal indiferentemente a ele. Cumprimos ordens, dizemos. A lei nos obrigou, afirmamos. E assim, vamos nos eximindo do Bem e praticando o Mal como se nada tivéssemos com isso. Não é a toa que a pior prática possível é a insenção. Eximir-se é não tomar partido. Ao fazê-lo, optamos pela indiferença, pela letargia. Abrimos nossas portas para o Mal. O Mal, principalmente ao qual me refiro, é a ausência de Bem pelo Outro. O Outro deve ser nosso alvo de amor. 
Perdoar não significa, porém, aceitar o Mal. Muito ao contrário. É partir para o autoconhecimento de si mesmo e do Outro, caminhando para a luta contra as injustiças do mundo. Mas, de alma lavada, como se diz. 
Reconciliar-se com o Outro é buscar o Bem, fugir da banalidade do Mal. Tantas tragédias individuais e coletivas nos assolam! Comecemos com o primeiro passo: perdoemos aos que nos ofenderam. Assim, podemos ousar pedir perdão pelas nossas ofensas, como nos ensinou Jesus naquela singela oração.

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