segunda-feira, 7 de abril de 2014

Membro do GEDEV fala sobre violência infanto-juvenil no Jornal DeFato

Nesta edição dominical do Jornal de Fato, o Professor Thadeu Brandão falou sobre a violência infanto-juvenil ao editor de Segurança Pública do periódico, o jornalista Fábio Vale. 

Segue link do Jornal em versão digital (página 06, Caderno de Segurança): CLIQUE AQUI.

Veja aqui na íntegra o texto da entrevista:


DeFato - Como a sociologia avalia a prática de violação de direitos de crianças e adolescentes materializadas em casos como agressão física, abuso e exploração sexual, e negligência?
Thadeu Brandão - O processo de socialização dos indivíduos, ou seja, aquilo que denominamos de "educação" é um processo socialmente estruturado. Gerações mais velhas educam as gerações mais novas. Tudo isso ocorre do nascimento do indivíduo até a sua emancipação que, em geral, ocorre no fim da puberdade. Como isso ocorre? Em geral, a reprodução das estruturais socioculturais e mentais se dão em sistemáticas de repetição e brincadeiras, premiando-se as ações consideradas positivas e válidas e punindo as que não são. Todas as sociedades humanas, portanto, praticam no seu processo socioeducativo familiar algum tipo de violência (física ou simbólica, ou mesmo ambas). Para nós, ocidentais, como mostram os historiadores, até o século XVIII as crianças eram consideradas adultos em miniaturas. O que tratamos por infância (em termos sociais) só passou a ter a existência que conhecemos há pouco mais de um século. A revolução industrial nos mostrou o trabalho infantil como prática corriqueira. Prisões de crianças eram comuns. A ruptura se deu com o advento daquilo que podemos chamar de “família burguesa”, onde as crianças, com a melhoria da qualidade de vida, passaram a ser tratadas como são hoje: com proteção integral e diferenciada.
Isso abre uma questão fundamental: ainda estamos passando por um processo de transição do papel que as crianças e imberbes têm em nossa sociedade. Uma questão de reconhecimento social. Para uma parcela da sociedade, esse reconhecimento ainda não ocorre totalmente. As gritas de punições de adultos para crimes executados por essa parcela é uma amostra sutil da questão.
Outro ponto é a violência contra crianças e adolescentes. Embora sempre tenham sido alvo predileto desta modalidade de violência, apenas agora elas passaram a ter visibilidade como vítimas. Ou seja, apenas nesta modernidade tardia é que visualizamos nossas crianças e adolescentes como passíveis de vitimas desse crime.
Vou dar um exemplo sutil. Quando eu era criança, naqueles idos dos anos 1980, era comum ver em casas das classes médias, meninas de 6 a 12 anos de idade, sendo “criadas” pelas famílias. Isso escondia (ou não) a exploração do trabalho infantil no emprego doméstico. Como tratávamos isso? Com uma naturalidade cega. Hoje, isso mudou.

DeFato - Em 2013, o Conselho Tutelar de Mossoró registrou 321 casos de violação de direitos de crianças e adolescentes materializadas em ocorrências como agressão física, abuso e exploração sexual, e negligência. Na sua visão de sociólogo, que medidas o Poder Público pode tomar para coibir e tratar de casos de violação de direitos de crianças e adolescente?

Thadeu Brandão - Nosso processo civilizador tem de avançar. Não bato em meu filho, embora ele me tire a paciência às vezes. Puno-o, com certeza. Utilizo mecanismos de coerção onde a violência física não precisa estar presente. É eficaz? Os países escandinavos possuem os mais baixos índices de criminalidade infanto-juvenis do mundo. Lá, não se pode bater em crianças há décadas. Violência é a forma que o poder encontra de expor sua impotência. Se ajo com violência, perdi há tempos o controle da situação. Neste sentido, a sociedade tem que apreender que o tratamento violento para com nossas crianças e adolescentes é um ato de barbárie. A ampliação dos conselhos tutelares, da salvaguarda integral dos menores, e assim por diante, são alguns mecanismos interessantes. Outro, é a diminuição da miséria e da pobreza. Famílias integradas violentam menos seus filhos. Criança que pode ir à creche e depois tem escola de tempo integral tem menos chance de ser violentada de alguma forma. Não há mistério.
Defato - Um levantamento do Conselho Tutelar de Mossoró revelou que neste primeiro trimestre de 2014 o perfil de violadores se concentrou em 79% em pais, responsável e/ou membros da família das vítimas. Como o senhor analisa a constatação de que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares?

Thadeu Brandão - Como já afirmei antes, o processo de educação é ainda muito violento. Batemos e gritamos, como expressão cabal de nossa impotência em educar efetivamente nossos rebentos. Batemos porque apanhamos antes. E, numa “Síndrome de Helsinque” perversa, achamos que a ação de apanhar é natural e saudável. Nossa sociedade é educada para o confronto e para a violência. Os dados de homicídios (entre os maiores do mundo) comprovam isso. Temos que romper com essa cultura da palmatória e da violência familiar.
Um dado interessante: apesar de tudo, as mulheres são apenas parcela pequena da criminalidade e da população penitenciária no Brasil. Porque? Por que, ao contrário de nós, homens, elas são educadas para a concórdia e para soluções apaziguamento e reconciliação. Claro que isso ocorre devido ao status negativo do papel da mulher na esfera pública, fruto do patriarcalismo e machismo. Mas, acredito que precisamos aprender com elas essa política da paz. Romper com a violência passa por quebrarmos o paradigma da educação familiar como se dá até hoje. Isso demorará muito, mas acredito que o processo civilizador caminha positivamente.

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