Sobre o autor


Thadeu de Sousa Brandão

Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor Adjunto de Sociologia da UFERSA e do Mestrado Acadêmico Interdisciplinar em "Cognição, Tecnologias e Instituições" (CCSAH/UFERSA) - (Nota 4 CAPES). Líder do grupo de Pesquisa "Observatório da Violência do RN". Autor de "Atrás das Grades: habitus e interação social no sistema prisional", "A Senhora do Sertão: a Festa de Sant'Ana de Caicó" e co-autor de "Rastros de Pólvora: Metadados 2015" e de "Observatório Potiguar 2016: Mapa da Violência do RN". Apresentador do Programa Observador Político da TV Mossoró e 93FM. Colunista do Jornal O Mossoroense.

Política, Sociologia, Ciência, Cultura e Filosofia. Blog criado em 22 de Outubro de 2012 e organizado por Thadeu de Sousa Brandão.

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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Sobre IPEA, violência contra as mulheres e nossa indignação seletiva

Samantha Nagle C. de Moura é advogada. Graduada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Mestranda em Gênero e Direitos Humanos pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).


A semana que passou foi marcada por uma controvérsia que se alastrou rapidamente pelas mídias sociais e que diz respeito diretamente às crenças e aos valores da sociedade brasileira em relação às suas mulheres. No dia 27 de março, o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) lançou a pesquisa Tolerância social à violência contra as mulheres, publicizando dados estarrecedores de um levantamento realizado junto a 3.810 entrevistad@s Brasil afora.

Nada obstante inúmeros dados surpreendentes, um deles atraiu maior atenção e gerou uma onda de indignação nas mídias sociais – inclusive engendrando uma campanha viral chamada “Eu Não Mereço Ser Estuprada”: de acordo com os dados iniciais, 65% d@s brasileir@s concordavam com a afirmação segundo a qual mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. O número era surpreendente até para quem lida e estuda a temática.

No dia 4 de abril, todavia, o Instituto lança uma errata em seu site oficial apontando um erro relevante causado pela troca dos gráficos relativos aos percentuais das respostas às frases “Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar” e “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Em relação à questão que causou furor, o percentual de pessoas que se diziam em concordância total ou parcial seria de 26%, e não 65% (confira a errata oficial aqui[1]).

Desconfianças em relação à metodologia e à seriedade do estudo não faltaram. O R7, por exemplo, publicou matéria com comentários de especialistas que apontavam falhas na condução da pesquisa (ver aqui[2]) e a Folha de S.Paulo se apressou a apontar uma pretensa “politização” e posição “militante” do Instituto após mudanças internas empreendidas pelo governo Lula (ver aqui[3]). Diversas alegações merecem desconfiança recíproca: a igualização entre político e politicagem (como se pesquisas sociais não tivessem necessariamente um caráter político mais ou menos explícito – seja de manutenção do status quo ou de contribuição para a construção do alternativo – e, pior, como se isso deslegitimasse o trabalho feito); o caráter não científico da pesquisa porque afere a opinião de pessoas mediante ditos populares (como se tais ditos não fossem a cristalização de costumes arraigados que podem – sobretudo quando lidamos com violência de gênero – aclarar o entendimento acerca da existência/difusão de determinados comportamentos); a impossibilidade de considerar o estudo como reflexo acurado da opinião da população brasileira, visto que muito mais mulheres do que homens (66,5% dos entrevistados eram mulheres) participaram da pesquisa (essas mulheres “excedentes” não fazem parte da população brasileira?).

De qualquer forma, o IPEA assegurou que o erro consiste em simples inversão de números e não vicia o percurso metodológico da pesquisa e os resultados obtidos como um todo:

"A correção da inversão dos números entre duas das 41 questões da pesquisa enfatizadas acima reduz a dimensão do problema anteriormente diagnosticado no item que mais despertou a atenção da opinião pública. Contudo, os demais resultados se mantêm, como a concordância de 58,5% dos entrevistados com a ideia de que se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros. As conclusões gerais da pesquisa continuam válidas, ensejando o aprofundamento das reflexões e debates da sociedade sobre seus preconceitos"

A desatenção de uma “troca” de resultados deve, sem dúvidas, produzir questionamentos acerca da precisão dos estudos estatísticos que usamos para embasar políticas públicas e nossos próprios entendimentos a respeito da sociedade que habitamos. Não rivalizo a inquietação e a permanente desconfiança que deve mover todo cientista perante informação alheia. Se toda essa polêmica servir para algo, será para nos tornarmos mais atentos com os dados que multiplicamos por aí. 
 
Por outro lado, o que fica de mais pungente disso tudo é uma sensação de oportunidade perdida. O IPEA vivencia uma crise de credibilidade com o erro que teve a decência de assumir e remediar (é o que se espera de instituições de pesquisa honestas) e o equívoco pontual passou a ser o todo – o resto da pesquisa e os outros números também reveladores abriram espaço para piadas cansativas na internet acerca de mais uma incompetência brasileira: o de fazer pesquisas científicas sérias[4]. No meio de todo o imbróglio, o problema endêmico da violência contra as mulheres ficou em segundo plano e a chance de se discutir um dos maiores gargalos em nossa democracia desapareceu tão rápido quanto surgiu.

O estudo do IPEA vem a corroborar uma série de outros estudos já feitos no Brasil, todos insistindo na posição nada invejável do país no que tange à maneira como trata suas mulheres. A título exemplificativo, o Mapa da Violência 2012[5] (realizado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos em parceria com a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais) aponta o Brasil como detentor da 7ª posição mundial em homicídios de mulheres: entre 1980 e 2010 foram assassinadas 92.100 mulheres – 43,7 mil só na última década, o que representa um aumento de 230% em relação ao período anterior. 41% dessas mortes ocorreram no ambiente doméstico, consubstanciando a afirmação de que o próprio lar, para as mulheres brasileiras, é ambiente demasiadamente perigoso.

Esta última afirmação também encontra guarida no Percepção da Sociedade sobre a Violência e Assassinatos de Mulheres no Brasil (2013)[6], realizado pelo Instituto Patrícia Galvão em parceria com o Data Popular: 70% da população acredita que as mulheres brasileiras sofrem mais violência dentro de casa do que em espaços públicos. A mesma pesquisa apontou que 54% d@s entrevistad@s conhecem uma mulher que foi agredida por um parceiro e 56% conhecem um homem que já agrediu uma parceira. A pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado (2010)[7] da Fundação Perseu Abramo, por sua vez, aponta que uma em cada cinco mulheres consideram já ter sofrido algum tipo de violência por parte de algum homem, conhecido ou desconhecido (18% nas respostas espontâneas; quando estimuladas, o número sobe para 40% das entrevistadas).

Ainda que os dados controversos do relatório do IPEA sejam descartados como não mais confiáveis pelos mais céticos, é de fundamental importância reiterar que o diagnóstico ali feito da sociedade brasileira é amplamente documentado e reflete precisamente a estrutura discriminatória e machista que ainda posiciona homens e mulheres em relações assimétricas de poder. Como disse o (agora polêmico) estudo, a sociedade brasileira é marcadamente patriarcal e heteronormativa, adere majoritariamente a uma visão de família nuclear também patriarcal, perpetua estereótipos acerca dos desejos e ideais de vida das mulheres (maternidade e casamento como condições sine qua non para a felicidade) e continua profundamente homofóbica (tendo como aceitável, por parcela significativa de sua população, a ideia de proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo e reagindo com desconforto perverso diante de demonstrações públicas de afeto entre tais casais).

É preciso exorcizar alguns demônios que nublam o que pensamos sobre as mulheres do Brasil. Conseguimos o sufrágio, a igualdade na família, a paridade jurídica, a licença-maternidade (e a licença-paternidade!), o aborto em caso de fetos anencéfalos e tantas outras conquistas, porém não deixemos a falsa sensação de estabilidade frear a luta por justiça social. Ainda ganhamos menos pelo mesmo trabalho, lidamos com a ingrata dupla/tripla jornada, somos sexualizadas na mídia, temos nossos direitos reprodutivos constantemente tripudiados, somos assediadas no espaço público e sub-representadas no Congresso Nacional, por exemplo. A longa jornada empreendida até hoje merece reconhecimento, mas não abre espaço para memória seletiva – sobretudo quando lidamos com violência de gênero, expressão mais covarde do machismo generalizado.

A pesquisa do IPEA, nesse sentido, tem sim valia na conscientização a respeito da condição atual das mulheres brasileiras. O erro é lamentável, mas insistir unicamente nos 65% vs. 26% é um total desserviço ao combate do problema: foge completamente ao cerne da questão e escamoteia o dado que importa – qual seja, a desigualdade de gênero sistêmica em pleno 2014.

Em nosso tropo processo civilizatório, marcado por avanços e retrocessos, os feminismos nunca deixaram de ser elemento indispensável na luta básica pelo reconhecimento da humanidade de metade de nossa população. Enquanto movimentos políticos e teóricos, eles permanecem indispensáveis e podem ser ferramentas bastante úteis nessa caminhada rumo à igualdade e ao reconhecimento/respeito de nossas diferenças. As Marias da Penha, as Claudias Silva Ferreira, as Luanas Piovani, as mulheres de Queimadas da Paraíba, as Gabrielas Leite, as Marias Amélias Teles e tantas outras continuam desejando um Brasil melhor. Nós podemos fazê-lo!


[1]Disponível em: <<http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=21971&catid=10&Itemid=9>>.
[2] Disponível em: <<http://noticias.r7.com/cidades/estudo-do-ipea-que-diz-que-mulher-merece-ser-estuprada-tem-falha-metodologica-dizem-especialistas-04042014>>.
[3] Disponível em: <<http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/04/1436292-analise-erro-do-ipea-joga-luz-sobre-politizacao-do-instituto.shtml>>.
[4] Disponível em: <<http://blogs.estadao.com.br/lol/o-ipea-apurou-que/>>.
[5] Disponível em: <<http://mapadaviolencia.org.br/pdf2012/MapaViolencia2012_atual_mulheres.pdf>>.
[6]Disponível em: <<http://www.compromissoeatitude.org.br/wp-content/uploads/2013/08/livro_pesquisa_violencia.pdf>>.
[7]Disponível em: <<http://www.apublica.org/wp-content/uploads/2013/03/www.fpa_.org_.br_sites_default_files_pesquisaintegra.pdf>>.

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