quinta-feira, 31 de julho de 2014

Conflito àrabe-israelente: maniqueísmo, direitos humanos e antissemitismo

Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Professor de Sociologia da UFERSA e Consultor de Segurança Pública da OAB/RN.


O tema que atualmente toma conta da pauta da mídia e, que indubitavelmente, nos assombra com as imagens de crianças, velhos e mulheres mortas, despedaçadas e feridas, quase absolutamente todas moradoras da pequena Faixa de Gaza, é a nova página do velho conflito àrabe-israelense.
Velho e carcomido, ainda enseja paixões e discussões ideológicas que fazem reacender temas como nacionalismo e antissemitismo. Outra senda visível é o uso (e desuso) do conceito de Direitos Humanos, tão criteriosamente escolhido para essa ou aquela etnia ou população, esquecido, porém, quando se tratam de tantas outras.
Israel é um pequenino Estado (judeu?) incrustado no Oriente Médio. Única democracia burguesa realmente factível, sobrevive praticamente em estado de permanente sítio desde sua fundação, na primeira das guerras, aquela de 1948, a da independência. Longe do mito hoje evocado, Israel não obteve apoio dos EUA. Comprou armas aqui e ali e aproveitou-se da frágil aliança árabe que queria jogá-los ao mar. Seriam necessárias mais duas guerras (1956 e 1967) para que o apoio dos Estados Unidos se consolidassem. A partir daí, Israel passou a conviver com uma grande comunidade palestina que abrigava-se na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. 
A Palestina nunca existiu como terra em si. Nome dado pelos romanos ao território que eles acreditavam ser a Fenícia, era uma faixa de terra que ia da atual Síria até as bordas do Sinai. Até o século I era de maioria judaica. Com a expulsão dos judeus pelos romanos, foi se formando uma maioria étnica de outros povos. Com a chegada do Islã, no século VII, foi ocupada pelos árabes, seguidos pelos Otomanos seis séculos depois. No século XX, passou para domínio inglês, após a I Guerra Mundial e a atrapalhada partilha feita em 1918-1919. 
Uma população autóctone, conhecedora da região e religiosamente muçulmana, passou a ser chamada de "palestina", principalmente após o início da chegada de milhares de colonos judeus, em fins do século XIX e início do XX. Com a II Guerra Mundial e o Holocausto, os judeus europeus afluíram em massa para a região. Os conflitos se iniciaram imediatamente.
Foi um processo de colonização? Sim, foi. Milhares de famílias árabes foram expulsas de suas casas ou simplesmente fugiram. A partilha proposta pela ONU em 1947 que previa dois Estados-Nação não se efetivou. Os palestinos não quiseram? Não. A Liga Árabe se recusou. Os judeus deviam ser jogados no mar. 
Começava, neste sentido, uma guerra simbólica eivada com o extremismo típico que assola aquele pedaço do planeta. Os palestinos, ficaram espremidos em território próprio? Não! A Faixa de Gaza ficou com o Egito e a Cisjordânia com a Jordânia. Vivia-se em condições sub-humanas sem que nenhuma nação civilizada sequer bradasse contra aquele desrespeito aos humanos direitos. Somente após a Guerra dos Seis Dias em 1967, é que a bola passou para Israel, cuja responsabilidade era óbvia.
Os palestinos passaram a lutar com a arma daqueles que sucumbem frente à um inimigo militarmente poderoso, mas cuja cultura democrático-burguesa permitem tal pressão: pelo terror. A OLP (Organização pela Libertação da Palestina) e seus braços armados deram a tônica da luta, até que, nos anos 1980, perceberam que trocar paz por terra era um jogo mais inteligente. Neste meio tempo, grupos mais extremistas como o Hamas surgiram.
Após décadas de discussões e lutas, a Autoridade Palestina (apenas em Gaza) surge como um fio de esperança para a existência de um Estado árabe palestino, com a perspectiva de se pensar em dois Estados dividindo aquele pequeno pedaço de terra que ambos chamam de Santa. 
Dois outros problemas surgiram: (1) desde a ocupação, Israel vêm ampliando a colonização na Cisjordânia, levando ao aumento da desconfiança e dos conflitos; (2) o Hamas, que passou a controlar a Faixa de Gaza, nunca reconheceu o Estado de Israel e seu direito já consolidado de existir. Estamos diante de um impasse ampliado pela construção de um muro (cuja satirização no filme "Guarra Mundial Z" é óbvia) que segrega ainda mais as chances de um diálogo.
Israel vem desrespeitando continuamente o direito dos palestinos da Faixa de Gaza à vida, à moradia, etc. Ao mesmo tempo, os ataques do Hamas (ineficientes graças ao escudo de mísseis israelense), continuam como desde o início do conflito. Os mortos, que hoje já estão perto de 1500 palestinos e 100 judeus, apontam não apenas a desproporcionalidade do conflito, mas sua natureza. 
Na Síria, o saldo de mortos já chega a 170 mil desde o incio do conflito por lá. A mídia internacional e os representantes dos humanos direitos se calaram. Porque? Só nos últimos 10 dias mais 1200 pessoas foram mortas! Seletismo?
Há um certo viés antissemita em jogo. Israel precisa ser punido internacionalmente e responder pelos seus atos. Não tenho dúvidas. Mas, o maniqueísmo de tratar o Hamas como um ente passível de diálogo é risível. Não vi essa grita contra o Talibã ou o Hezbollah. Quando se trata de Israel, há uma perversa semiótica em jogo, além do antiamericanismo de sempre.
Necessário intervenção imediata neste conflito? Sim! Assim como no sírio e em tantos outros. Mas, porque agir seletivamente? A Nigéria neste momento também padece sob brutal massacre. Não vejo uma única postagem sobre o caso. Porque hein?
Mais do que disseminar preconceitos e platitudes, necessitamos de uma visão realmente crítica sobre o assunto. Direitos Humanos para quem é humano? Excluímos os nigerianos e sírios desta pauta? 
Por último, os especialistas acreditam que um cessar fogo na região depende de ações concretas dos EUA e do Egito. Sem isso, mais sangue e mais imagens agoniantes em nossas frentes. 
Pior: a culpa de sabermos que, choramos por uns e damos as costas para os outros.

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