segunda-feira, 7 de julho de 2014

Nobert Elias, futebol, violência e habitus: reflexões



Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Professor de Sociologia da UFERSA e Consultor de Segurança Pública da OAB/RN.


A luta entre povos e nações sempre perpassou a história da humanidade. Seja de forma ritualizada ou não, confrontos sempre foram a tônica das relações inter-nacionais. Mesmo após períodos de longa pacificação social, como em nossa hodiernidade, surgem alguns costumes sociais que passam a marcar a tônica controlada dos conflitos. O esporte grupal, em geral, é um desses costumes.
De natureza violenta, embora controlada, o futebol é marcado por certa legalidade normativa que tenta minimizar a esfera da violência dentro “das quatro linhas”. Cabe ao “árbitro”, figura da mediação e da punição, tomar as devidas providências cabíveis em caso de uso não legal do corpo no jogo. Muitas vezes, isso não é conseguido. Mas, não é nessa seara que minha reflexão gostaria de caminhar.
O escopo da violência que percebo no futebol não é algo apenas endógeno ao esporte em si. Atravessa o esporte bretão e acompanha certa lógica social que pauta o conflito como forma de (anti)sociabilidade.
Construímos em geral – nós “brasileiros” –, ao longo de nossa história, um certo habitus do confronto, pautado da “macheza”, na noção de “guerreiro”, de “lutador” que estão sempre presentes não apenas em momentos extracotidianos, como Copas do Mundo, mas no nosso dia a dia, no trânsito, em discussões fúteis em bares ou nas ruas. Nossos altos índices de violência homicida e outras modalidades apontam para uma correlação entre esse habitus e nossa visão de que o conflito é sim uma forma de resolução das contendas e desavenças. Por que será que demos aos estádios de futebol o nome de “arenas” (nome dados aos locais onde os gladiadores e feras da Roma antiga lutavam até a morte sangrenta)?
Citando Nobert Elias:

Caso se quisesse tentar reduzir o problema-chave de qualquer processo civilizador à sua forma mais simples, então poder-se-ia dizer que é o problema de como as pessoas conseguem satisfazer suas necessidades animalescas elementares, sem reciprocamente se destruírem, frustrarem, humilharem ou de algum outro modo causarem repetidos danos umas às outras em busca dessa satisfação – em outras palavras, sem que a realização das necessidades elementares de uma pessoa ou grupo de pessoas seja obtida à custa das de uma outra pessoa ou grupo (ELIAS, 1997, p. 42).

Ou seja, nosso processo civilizador foi pautado por uma lógica de que o confronto pode sim ser usado como forma de tomar satisfação em qualquer situação. Claro que, com a ampliação de instituições jurídicas e de um dado Estado de Direito, tendemos a caminhar para uma maior judicialização do processo. Mesmo aqui, porém, a ideia não de solucionar o conflito, “mas ganhá-lo”, como aponta a fragilidade dos mediadores e árbitros nesta seara. Também podemos dizer que houve determinada mudança na relação entre as coações sociais externas (jurídicas ou não) e autocoações individuais. Muita coisa mudou, mas algo permaneceu no caminho.
E o futebol? O que tem a ver com tudo isso? O que quero discutir aqui é como transladamos esses elementos de conflito para o esporte. Sejam apontando os jogadores como “guerreiros”, “lutadores”, etc., seja fazendo de cada jogo um combate de vida ou morte. Os adversários esportivos tornam-se “inimigos da pátria”. O selecionado de futebol, empresa privada de fins lucrativos, torna-se o bastião nacional. Deve ser honrado, devotado e louvado in extremis. Cada jogador meio que se sente como nossos pracinhas ao tomares Monte Castelo naquela Itália da II Guerra Mundial. Infantes da luta gloriosa pela Mãe-Gentil.
Se, do ponto da formação da identidade nacional, os arroubos patrióticos são importantes, fica o assombro dos gritos de “morte” aos “inimigos”, de incivilidade de vaias aos hinos nacionais estrangeiros, das medievais demonstrações de raiva e rancor. Traduzimos um habitus ainda em formação (melhor: sempre em constante formação, como todo ele) que valoriza formas (in)civilizadas de sociabilidade? Não se trata de punir X ou Y, afinal, no decorrer de um processo civilizador, o mecanismo de autocoação tende a tornar-se mais forte do que as coações externa, assim como se torna mais uniforme e abrangente. Conseguiremos? O tempo dirá.

Citações

ELIAS, Nobert. Os Alemães: A luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX. Editado por Michael Schröter. Tradução de Álvaro Cabral. Revisão técnica de Andrea Daher. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

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