Sobre o autor


Prof. Dr. Thadeu de Sousa Brandão

Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor Adjunto (IV) de Sociologia da UFERSA e do Mestrado Acadêmico Interdisciplinar em "Cognição, Tecnologias e Instituições" (CCSAH/UFERSA) - (Nota 4 CAPES). Líder do grupo de Pesquisa "Observatório da Violência do RN". Autor de "Atrás das Grades: habitus e interação social no sistema prisional", "A Senhora do Sertão: a Festa de Sant'Ana de Caicó" e co-autor de "Rastros de Pólvora: Metadados 2015" e de "Observatório Potiguar 2016: Mapa da Violência do RN". Apresentador do Programa Observador Político da TV Mossoró e 93FM. Colunista do Jornal O Mossoroense. Consultor da Comissão de Segurança Pública e da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RN.

Política, Sociologia, Ciência, Cultura e Filosofia. Blog criado em 22 de Outubro de 2012 e organizado por Thadeu de Sousa Brandão.

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domingo, 24 de agosto de 2014

A reinvenção da Era Vargas e o desenvolvimento nacional. Entrevista com Carlos Lessa.

Na íntegra, via UNISINOS.
 
“Em termos de política externa, Vargas faz coisas inteligentes, que vão desde negociar com a Alemanha e depois se articular com os Estados Unidos, mas mantendo a integridade nacional, sem ceder nos aspectos substantivos de seu projeto de Estado”, avalia o economista.

 Foto: Filak
“A Era Vargas mostra que é possível um país que era praticamente um cafezal se transformar na sétima economia industrial do mundo. Depois de termos ocupado essa posição, não devemos abrir mão do sonho industrial e combiná-lo melhor com a observância dos direitos civis, da confiabilidade democrática, fortalecimento dos institutos federativos”, aponta o professor doutor Carlos Lessa, em entrevista por telefone à IHU On-Line. “Se não formos capazes de fazer essas coisas, estamos jogando fora a Era Vargas, como se jogássemos a água suja da bacia com o bebê dentro”, complementa.
Na opinião de Carlos Lessa, um modo produtivo de pensar a história do Brasil desde o século XX é abordá-la a partir de três paradigmas: com Vargas, contra Vargas ou sem Vargas. “Durante 50 anos o Brasil apostou na industrialização para sair da periferia do mundo e, mais do que isso, para integrar as reformas sociais. Tais reformas começaram com a Consolidação das Leis do Trabalho, a ideia de empresariado nacional, a criação de protagonistas ligados à modernização e, também, uma tentativa de olhar para o futuro”, destaca Lessa.
Ao longo das últimas seis décadas, a chamada Era Vargas foi sistematicamente sendo deixada de lado, por diversas razões, inclusive por uma esperança de pujança nacional que viria com a redemocratização do país, após o regime militar. “Eu, como tantos outros que fizeram oposição ao regime, praticava a seguinte simplificação: todos os problemas do Brasil derivavam do governo militar e a democracia seria uma panaceia que resolveria tudo. Mas a realidade é que a democracia foi só simbolicamente conquistada. A democracia não foi discutida nas suas características e experiências passadas com a cultura do Brasil”, sustenta o entrevistado. “Nós temos de olhar para dentro de nós e buscar referências importantes para pensar nossa história, e uma delas é Getúlio Vargas. Isso não significa que vai se repetir o que Getúlio fez, a história só se repete como farsa, mas não é possível desconhecê-la”, argumenta.
Carlos Lessa é formado em Ciências Econômicas pela antiga Universidade do Brasil e doutor em Ciências Humanas pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas - Unicamp. Em 2002, foi reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e, em 2003, assumiu a presidência do BNDES.
Confira a entrevista.
 Foto:aepet.org.br
IHU On-Line – Qual foi o projeto de Brasil implantado por Getúlio Vargas na primeira metade do século XX?
Carlos Lessa – Para responder a essa pergunta é preciso retroceder aos grupos republicanos paulistas e gaúchos antes da Proclamação da República. Porque os clubes gaúchos defenderam certas teses que são extremamente relevantes na visão de um projeto de Brasil, entre elas o abolicionismo, tendo esses clubes no Rio Grande do Sul estimulado a adesão voluntária dos gaúchos a esta postura.
Antes mesmo da abolição, o estado havia reduzido significativamente o número de escravos. Esses clubes do sul condenavam, digamos assim, discretamente o Clube Revolucionário Paulista porque ele não se comprometeu, em Itu, com o ideal abolicionista. A ideia de construir um Brasil mais justo impregnou o movimento republicano no RS e gerou a assimilação rápida do que eu chamo de positivismo ibérico nas Américas.
As raízes positivistas mais importantes no continente foram México, Brasil e Argentina. No Brasil, certamente, a mais importante presença foi no Rio Grande do Sul. Isso tudo dentro de uma perspectiva positivista que acreditava que era possível o progresso econômico e social desde que a razão prevalecesse. O positivismo gaúcho foi extremamente bem-sucedido do ponto de vista político, dando origem, inclusive, a Borges de Medeiros, que foi eleito governador do RS por cinco vezes.
Vargas começou sua vida pública como estudante de Direito, e como estudante de Direito foi encarregado por seus colegas para saudar Afonso Pena, eleito presidente da República, na visita que havia feito ao RS. No discurso de saudação que Vargas proferiu, em 1906, ele diz uma coisa muito interessante e importante: “O Brasil não deveria exportar minério de ferro. O Brasil não deveria importar enxadas. O Brasil deveria produzir enxadas com seu próprio minério de ferro”. Ele usou o termo “enxadas” porque na época a ideia da mecanização ainda estava muito incipiente. A ideia defendida por Vargas é que o Brasil não deveria ser uma economia primário-exportadora, mas sim industrializada. Os pensamentos iniciados e ensaiados nesse período permitiram o embrião de aspectos relacionados ao trabalho, ao planejamento e, também, a uma visão muito encorajadora da ideia de educação. Essas são visões presentes nas discussões gaúchas, que Vargas conhecia e apoiava. Inclusive a primeira empresa estatal comprometida com o desenvolvimento nacional é a Viação Férrea do Rio Grande do Sul.
 

“Eu não sei se Vargas ignorou tanto assim os Direitos Humanos, porque, afinal, tais direitos não eram respeitados na República Velha”

Industrialização
Getúlio Vargas estava impregnado de uma visão positiva do Brasil no futuro. A maturidade dessa reflexão pode ser percebida por outras pessoas que faziam parte do círculo, entre elas João Neves da Fontoura, que, ao amarrar simbolicamente seu tordilho no obelisco central da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, faz o seguinte discurso: “O Brasil só poderia ser totalmente soberano quando fizesse as máquinas que fazem máquinas”.
Esta é uma ideia avançadíssima da industrialização e que foi feito por alguém que, simbolicamente, chegou a cavalo. A ideia da industrialização está profundamente sedimentada na cabeça de Getúlio e avançar na industrialização é indispensável para remover obstáculos — pensamentos que estão presentes na administração de Vargas nos anos 1930. Isso se reflete nos primeiros grandes atos da sua gestão, que são o Código Nacional de Mineração e o Código Nacional de Águas e Energia. Esses eram dois instrumentos decisivos para que o Brasil retirasse de concessionários, que estavam em cima das riquezas do Brasil, os recursos necessários para o desenvolvimento econômico. Essa ideia está absolutamente clara na cabeça de Vargas e de seus companheiros, que começam o trabalho inovando a administração pública nos anos 1930, logo depois da revolução.
Antes, porém, nos anos 1920, há um processo de redescoberta do Brasil do ponto de vista da identidade nacional, conhecido por muitos nomes, desde Semana de Arte Moderna até Movimento Antropofágico. Tais ideias impregnaram Getúlio, que chamou nomes importantes desse movimento para fazer parte de seu governo. O sonho brasileiro dele era pensado ensaisticamente nas instituições gaúchas, antes da República Velha , e tinha uma enorme vontade de pensar a identidade nacional em sua plenitude. Isso é importante porque explica o projeto de Vargas para o Brasil.

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