quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Xarias e Canguleiros



Luís da Câmara Casudo.


 Natal sempre se dividiu nos dois bairros veteranos de seu povoamento: Cidade Alta e Ribeira.
A Cidade Alta, historicamente, começava numa colina, vértice do ângulo formado pela junção de duas ruas, Junqueira Aires e João Manuel, no Esquare Pedro Velho.
A Ribeira denuncia um alagadiço d'água salobra que se espraia por toda a praça Augusto Severo, também conhecido como o Santo. A maré de preamar vinha lavando desde o pé dos morros, onde passa o final da avenida Rio Branco, englobando avenida Duque de Caxias (antiga avenida Sachet), a tradicional Campina da Ribeira, um u iço da rua Coronel Bonifácio e saldos da rua Dr. Barata. Era um banhado que reluzia ao luar e envergonhava o sol. Para o trânsito havia uma simples pinguela, um toro de madeira atravessando, logo depois da Estação da Estrada de Ferro, o sulco por onde corriam as águas. Onde estão o teatro Carlos Gomes, Grupo Escolar Augusto Severo e Escola Doméstica havia água e lama. Nas madrugadas tépidas, com luar, os empregados das casas próximas tomavam banho salgado. Nos primeiros anos da república ainda era assim.
Dizia-se a ponte referindo-se aos toros que facilitavam o trânsito. Já mencionavam a ponte os documentos da primeira metade do século XVI. Figura nos mapas holandeses, como no Veroveringe van Rio Grande in Brafil, Anno 1633.
Da ponte para cima viviam os xarias. Da ponte para baixo moravam os canguleiros.
O limite máximo era a ponte. A fronteira comum, entretanto, findava-se no beco do Tecido, rua Juvino Barreto, extrema atual da freguesia do Bom Jesus das Dores da Ribeira. Dizia-se Tecido a Fábrica de Tecidos que ficava logo depois do beco. Desta fábrica resta a chaminé, com a data: - 1888.
Entre xarias e canguleiros a rivalidade era velha e durou dezenas de anos. Moleques, valentões, meninos de escola, desocupados, praças do Exército e do então Batalhão de Segurança mantinham o fogo sagrado dessa separação inexplicável. Naturalmente as famílias da Cidade e da Ribeira conviviam com afeto. Os meninos, os criados, esses, encontrando gente de um bairro no outro lado, iam às vias de fato, infalivelmente. O grito de guerra, de ambos os grupos, era:
Xaria não desce!
Canguleiro não sobe!
Do beco do Tecido em diante só os campeões se afoitavam depois do escuro da noite. Pau tostado, miolo de aroeira, quiri, canivete, tomavam a palavra entre safanões, murros, capoeiragem e vasta descompostura expressiva.
Na festa da Padroeira, novembro, os canguleiros vinham em bandos, armados. Assistiam aos atos, aplaudiam os fogos mas sabiam que o combate era fatal no beco do Tecido. Havendo circo de cavalinho dava-se a tragédia para os xarias. O circo, quase sempre, armava-se na Ribeira. A música de seu Candinho, Cândido José de Melo, administrador do Cemitério, era contratada e trazia um cortejo de admiradores. Esses não passavam da ponte. Do lado de lá os canguleiros esperavam, lambendo o beiço.
Antes de 1880 essa tradição dominava o povo. Qual a origem dos nomes de guerra?
Provinha da alimentação preferida pelos dois bairros no tocante à ictiofauna nordestina.
No Canto da Ribeira, fim das ruas Chile e Silva Jardim, abicavam as jangadas e botes de pescaria trazendo peixe abundante. O pescado mais farto era o cangulo, balistes vetula, o peixe-porco.
Na cidade os gostos se decidiram pelos xaréus e xareletes, Caranx hippos, Caranx chrysos, vindos de Areia Preta e Ponta Negra.
Canguleiro é o comedor de cangulo e xaria é o comedor de xaréu. Os apelidos vieram dessa simpatia gastronômica. Muita cabeça partida, muito nariz amassado, muito braço torcido, muita prisão, foram corolário desses pratos antigos nas ceias gostosas do velho Natal provinciano.
Tudo ajudava a dissensão. O Batalhão de Segurança tinha o seu quartel na Ribeira. O Exército o seu na Cidade. Os meninos do Grupo Escolar Augusto Severo eram canguleiros. O Colégio Santo Antônio era xaria. Verdadeiras batalhas se travaram com espadas de arco de flecha, pedradas, areia e insultos dignos de toda malandragem de um homem carioca.
A 7 de setembro de 1908 os bondes de burro começaram a subir e finda a ladeira que distanciava a Cidade da Ribeira. A facilidade da comunicação imediata, fácil, barata, aproximou os dois núcleos de população Meninos, soldados, empregados, valentões andavam para Ia e para , Variamente muitas vezes, desencantando-se mutuamente. O calçamento da Avenida Junqueira Aires levou esse elemento a ponto de fusão. Misturai um-se, confundiram-se, uniformizaram-se.
Xarias e canguleiros morreram. Ficou o Natalense...

In: História da Cidade do Natal,  3a Ed. Natal: RN Econômico, 1999. p. 233-235.

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