sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Estudo de Textos (I Parte)



Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais e Professor de Sociologia da UFERSA.
 
1. O QUE É UM TEXTO?

O texto é obra humana, produto humano, e se expressa através dos mais variados meios simbólicos: peças de teatro, filmes, televisão, pinturas, esculturas, literatura, poesia, livros científicos e filosóficos, artigos de revistas e jornais, etc., etc., etc. Os textos são a memória do homem enquanto ser-no-mundo e se constituem na herança que possibilita dar continuidade à obra humana na História.
O autor do texto é o homem historicamente situado, que vive a experiência no mundo com os homens, que participa do existir num tempo e num espaço específicos a partir de determinadas condições econômicas, políticas, ideológicas e culturais. Enquanto produto das suas relações com o mundo, é ao mesmo tempo produtor, que transforma o mundo colocando algo de si, mesmo quando não existe o desejo intencional de fazê-lo.
O texto, a obra, é a expressão do viver, experienciar, participar; é o produto colocado no mundo, tem a marca humana. É a manifestação do que o homem produz nos vários campos das artes, da literatura, do saber. É carregada de significações... O texto ilumina e esconde, obscurece o mundo e, ao mesmo tempo que pretende dar respostas aos questionamentos suscitados pelos homens, levanta outras questões, outras perguntas. Esclarece, obscurece...
A obra é histórica, sempre guarda um sentido subjacente; portanto, não é um objeto, não é algo pronto, acabado, definitivo, absoluto. É um eterno fazer-se, o resultado do conjunto de experiências que o homem vivencia na História.

2. O TEXTO TEÓRICO

O texto teórico é expressão humana através da palavra articulada – linguagem. É através dela que expressa a sua vida. “... E entre os mais variados meios simbólicos de expressão usados pelo homem, nenhum ultrapassa a linguagem, quer na flexibilidade e poder comunicativos, quer na importância geral que desempenha. A linguagem molda a visão do homem e o seu pensamento – simultaneamente à concepção que ele tem de si mesmo e do seu mundo (não sendo estes dois aspectos tão separados como parecem). A própria visão que tem da realidade é moldada pela linguagem”.
s textos teóricos são as obras que expressão um conhecimento do mundo e que se diferenciam de outras expressões simbólicas, e mesmo de outras expressões do conhecimento, à medida que são sistematizados, organizados, metódicos. Expressam os saberes produzidos pelos homens ao longo da História e refletem infinitas posições a respeito das questões suscitadas no enfrentamento com a natureza, com os homens e com a própria produção do saber. Como toda obra humana, são imprimidos pela marca da historicidade, “carregam” os significados impressos pelo tempo e espaço em que são produzidos. “Expressam o enfrentamento de seus autores com o mundo.” Traduzem as angústias, os problemas, as questões que são suscitadas pelo mundo e que desafiam os homens, autores dos textos, das obras.
A sistematização, organização e metodização dos saberes expressos nos textos teóricos resultam de um processo de construção ao longo da História em que os pensadores, cientistas, foram definindo caminhos, sempre na tentativa de encontrar o eixo possível de “esgotamento” de explicação do real. Mas, não se pode esquecer: o que ilumina, também “faz” sombras...

3. A RELAÇÃO AUTOR – TEXTO – LEITOR

A leitura não pode se reduzir a um conjunto de regras de explicação de um texto, como se ele fosse um objeto pronto, acabado, a ser assimilado pelo leitor. O texto “é uma voz humana, uma voz do passado à qual temos, de certo modo, que dar vida”. O abrir-se ao texto pressupõe o diálogo com o seu autor, exige o “ouvir” a sua palavra, o seu mundo, a compreensão dos significados nele implícitos.
A leitura de um texto pressupõe objetivos, intencionalidade... O leitor, ao se dirigir ao texto, está preocupado em responder às questões suscitadas pelo seu mundo e, através do enfrentamento das posições assumidas pelo autor, busca encontrar pistas que o auxiliem no desvendamento de sua realidade. É somente neste encontro histórico, onde experiências diferentes se defrontam, que é possível a compreensão e interpretação de textos. “Assim as humanidades alcançam uma medida mais cheia de autoconhecimento e uma melhor compreensão do caráter de sua tarefa”4. Neste sentido, compreender o texto é tomá-lo a partir de um determinado horizonte, da perspectiva de quem se sente problematizado por ele, e a partir daí deixar-se “possuir” por ele.

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