Sobre o autor


Thadeu de Sousa Brandão

Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor Adjunto de Sociologia da UFERSA e do Mestrado Acadêmico Interdisciplinar em "Cognição, Tecnologias e Instituições" (CCSAH/UFERSA) - (Nota 4 CAPES). Líder do grupo de Pesquisa "Observatório da Violência do RN". Autor de "Atrás das Grades: habitus e interação social no sistema prisional", "A Senhora do Sertão: a Festa de Sant'Ana de Caicó" e co-autor de "Rastros de Pólvora: Metadados 2015" e de "Observatório Potiguar 2016: Mapa da Violência do RN". Apresentador do Programa Observador Político da TV Mossoró e 93FM. Colunista do Jornal O Mossoroense.

Política, Sociologia, Ciência, Cultura e Filosofia. Blog criado em 22 de Outubro de 2012 e organizado por Thadeu de Sousa Brandão.

Siga nossa página no Facebook: https://www.facebook.com/profthadeubrandao/

Contato, críticas, sugestões e artigos: thadeubrandao@bol.com.br

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Mal-Estar na Sociedade Brasileira

Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na USP e pesquisador 1-A do CNPq.
 
Por que nos sentimos tão mal na vida social? Este é um tema constante nas conversas, na experiência social, pelo menos do meio social e cultural a que pertencemos, nós, autores e leitores desta revista. Estamos insatisfeitos com a má qualidade dos serviços públicos. Muitos reclamam da corrupção que veem em um ou mais dos três níveis de governo. E há mais, muito mais. Mas, tal preocupação não parece adquirir tanta relevância no discurso e na prática dos políticos. O que, neste mal-estar, depende da política e de seus atores? E o que vem das linhas mestras da vida contemporânea, como, por exemplo, a crescente individualização, notada desde, pelo menos, o final do século XVIII, trazendo, por um lado, maior liberdade pessoal e, por outro, um enfraquecimento do laço social? Aqui, à diferença dos números anteriores da revista, e justamente porque este número vai circular durante as eleições, a ênfase será mais na vida social do que na política. Porém, o quadro aqui desenhado pretende ser também um desafio para futuros governantes e agentes políticos em geral.

* * *

Há que perguntar, inicialmente, quem é este “nós” que sente tal mal-estar. Duas narrativas antagônicas cindiram a sociedade brasileira nos últimos anos. Por coincidência, a revista Inteligência dedica a capa de seu número mais recente ao que chama “Mal-estar na burguesia”1: quem estaria descontente seriam as classes médias e altas, ao contrário dos mais pobres, beneficiários principais da forte inclusão social ocorrida nos últimos dez anos. Temos, hoje, com efeito, um corte radical entre duas narrativas sobre o Brasil. Uma delas, a mais presente na opinião pública, isto é, na mídia e nas camadas sociais com maior acesso a ela, mas derrotada nas eleições gerais de 2006 e 2010, condena fortemente os governos do PT, entende que eles promoveram a corrupção em escala inaudita no País, acusa-os eventualmente de demagogia e até mesmo de comprarem votos populares com seus programas sociais2. Outra corrente, com menor presença na mídia, mas alguma frequência nas redes sociais –detentora de maioria no eleitorado nas eleições de 2006 e 2010 –, aprova os governos do PT, porque integraram na sociedade de mercado ou dos direitos grande número de pobres e, implantando programas como o Bolsa Família, o ProUni, as cotas e o Mais Médicos, melhoraram a vida de muitos brasileiros. Até mesmo no plano ético temos uma clara cisão. Para a oposição, a grande questão ética é a da corrupção ou não no trato dos dinheiros públicos, enquanto para a situação o ponto ético por excelência é o fim da miséria. O que para um lado é ético, para o outro, praticamente não se menciona. Vivemos, assim, uma divisão bastante acentuada entre duas visões do Brasil. O problema é que esse racha não se limita à interpretação dos fatos. Se tivéssemos pelo menos um acordo quanto aos fatos e uma divergência quanto à interpretação estaríamos possivelmente em uma situação melhor, do ponto de vista do diálogo. Mas, os próprios fatos são vistos de forma diferente pelas duas famílias da divisão. A oposição tucana concentra o fogo no que chama mau desempenho da economia, enquanto a situação nega que seja essa a condição real do País. E até mesmo no lazer vimos a divisão, quando segmentos da população que, em outros tempos, teriam torcido pela seleção brasileira na Copa do Mundo, afirmaram desejar a derrota do Brasil, para evitar que o governo fizesse uso eleitoral dela.
Daí que cabe a pergunta: mal-estar para quem? Temos um mal-estar da sociedade inteira ou ele está concentrado nas camadas sociais mais abonadas? Trata-se de um sentimento de forte marca ideológica, ou corresponde ele a uma realidade efetiva? Lembro que, quando, nos anos 1980, muitos de nós, professores universitários, reclamávamos da má qualidade do ensino público gerada pela ditadura – antes deste dado as escolas pertencentes ao Estado muitas vezes figuravam entre as melhores do País – e ouvíamos a resposta, dada já por gestores democráticos, como, por exemplo, colaboradores do governo Franco Montoro, em São Paulo, segundo a qual a boa qualidade anterior servia a uma elite, enquanto a má qualidade na época representava, apesar de tudo, uma promoção para as multidões que antes não tinham acesso à escola. Com efeito, até o final dos anos 1960, se prestava um vestibular, o “exame de admissão”, para se entrar no ginásio, que corresponderia ao atual sexto ano do ensino fundamental – o que hoje soa como uma política absolutamente desastrosa no trato das crianças, no caso, pobres. Certas reclamações precisam, assim, ser consideradas cum grano salis. Até porque não estão fora do quadro de uma forte polarização política que marca o País desde o momento – para uns feliz, para outros, infeliz – em que após o impeachment de Fernando Collor, os dois melhores grandes partidos que temos, PT e PSDB, assumiram cada um a liderança de um lado do espectro político. 

Para ler o restante do artigo, clique AQUI.

Nenhum comentário:

Postar um comentário