segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Novo governo, velhos problemas

Tomislav R. Femenick, Mestre em Economia, pela PUC-SP , jornalista e bacharel em Ciências Contábeis pela Universidade Cidade de São Paulo.


O próximo presidente da República, ele ou ela, terá muitos, imensuráveis, problemas pela frente. Convenhamos, não é fácil administrar um país com tantas diversidades como o nosso. Somos complicados, como complicados são os países com extensão que mais parecem continentes. A nossa terra tem regiões com características totalmente diferentes. A exuberância da floresta amazônica contrasta com o raquitismo da caatinga nordestina; as noites frias do inverno de Santa Catarina e das serras gaúchas são um contraponto para o calor escaldante de Cuiabá e do Piauí, no período de verão; às vezes temos, ao mesmo tempo, seca no Nordeste e em São Paulo e enchentes no Norte e Centro Oeste.
Se assim é nossa geografia, mais complicada ainda é nossa composição como nação. Tomemos como exemplos o matuto nordestino e o caipira mineiro ou paulista. Ambos têm em comum o viver no campo, a pouca instrução, o recato social e a desconfiança para com os moradores das cidades. No entanto suas personalidades, se analisadas de perto, evidenciam mais diferenças que igualdade. O matuto é mais extrovertido, canta emboladas, dança maracatu e se comunica pela poesia dos cordéis. O caipira é reservado, introvertido e só se faz ver pela música cantada em duplas.
É… não é tarefa para principiantes governar toda essa terra e toda essa gente.
Não bastassem os problemas naturais – a formação da terra e do povo brasileiros –, há o descontrole dos atos governamentais que criam entraves ao desenvolvimento. A agricultura produz alimentos e grãos, mas não tem como escoar sua produção. Faltam estradas, trens e portos, que são poucos. A indústria sofre com esse mesmo caos viário, com a concorrência dos importados subsidiados em seus países de origem, os tributos em cascata, as altas taxas de juros, a burocracia estafante, o desinteresse dos burocratas e a enxurrada regulatória que cria jabuticabas artificiais (coisas que só existem no Brasil): a tomada de três pinos, a cópia autenticada e o reconhecimento de firma.
Nas bastasse tudo isso, vivemos o ressurgimento da inflação, que corroí os salários e o valor das mercadorias se não reajustadas; resultado, alta dos preços. Nesse cenário é difícil produzir, crescer e fazer o desenvolvimento.
Todas essas excentricidades e a excessiva interferência governamental têm reflexo direto na economia e geram os “pibinhos” ridículos e ameaça de déficit na balança comercial, com reflexo na balança de pagamento. Temos, ainda, gargalos fiscais, tributários, creditícios, fundiários, comerciais, tecnológicos, trabalhistas, previdenciários, financeiros, ambientais e organizacionais, ente outros.
O futuro presidente – o novo ou a que continuará, não importa quem – terá que enfrentar tudo isso e mais o inevitável reajuste dos preços dos derivados de petróleo, da energia elétrica, das matérias-primas e dos produtos de consumo importados, o que afetará o poder de compra dos trabalhadores e da classe média.
Junte-se a isso a imobilidade dos governos de todos os níveis. Obras se iniciam e param. Em todo o país há centenas de esqueletos de hospitais cujas construções foram paralisadas. As obras de ferrovias, de portos, da transposição do Rio São Francisco, das refinarias de petróleo, anunciadas com estardalhaço, andam com passos de cágados ou foram abandonadas; muitas nem saíram do papel. O ressurgimento da indústria naval foi abortado, a indústria automobilística dá férias coletivas, lança mão de “bancos de horas”; no geral o setor já desempregou milhares de operários. No campo há as invasões, as frustrações de safra, a evasão de mão de obra, os altos custos dos fertilizantes e dos defensivos.
Essa será a herança que receberá o novo governante dos brasileiros.

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