quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O que a campanha eleitoral revela e esconde

Na íntegra, via UNISINOS.

Temos um enorme bem comum mundial a gerir, um dos maiores territórios cidadãos do planeta, com fantástica biodiversidade, água e minerais. Neste sentido, a pergunta que, como brasileiros e brasileiras, não podemos postergar é ‘Que Brasil o Mundo Precisa?’. Será que estamos assumindo a nossa responsabilidade na construção de ‘outro mundo’”? O comentário é de Candido Grybowski em artigo  no Canal Ibase, 22-10-2014.


Eis o artigo.

Estamos tomados por uma acirrada disputa pela Presidência da República. O processo da campanha eleitoral levou à formação de dois grandes blocos em torno a Dilma e Aécio, numa combinação de elementos partidários, ideológicos, programáticos e, sobretudo, sociais e geopolíticos. É uma polarização muito contraditória, de coalizões pouco orgânicas no sentido de ideário mobilizador e projeto de sociedade em disputa. Reflete mais um país desigual, com processos diferenciados de emergência política de suas estruturas sociais, locais e regionais, do que a constituição de forças no seio da sociedade civil com poder de disputar hegemonia no sentido pleno da palavra. A polarização da disputa se deu mais pelas ameaças e possibilidades que sente a cidadania, das conversas no cotidiano e da propagação difusa na sociedade, do que por influência dos debates na televisão e da campanha eleitoral na mídia.
Um primeiro aspecto a destacar nesta situação é o quanto a emergência de tal polarização pode fazer bem à democracia no Brasil. Afinal, é o país real que configurou isto, mais do que os partidos e os políticos. A polarização revela vitalidade, que pode levar a uma nova onda de democratização. Mas, ao mesmo tempo, precisamos considerar o fato que uma importante franja, algo em torno a 20% da cidadania, não se sente espelhada em tal polarização e pode não votar ou anular o seu voto, mas é um conjunto importante politicamente no debate de nosso futuro e dos caminhos a construir. Enfim, está dada uma agenda para a reanimação e revitalização da democracia, começando com uma profunda reforma da política, enquanto espaço comum de disputa de sentidos e projetos, e da institucionalidade política, partidária, participativa e eleitoral, de constituição da representação nos poderes executivo, legislativo e judiciário.
Um segundo elemento decorrente da enorme polarização que vivemos tem a ver com o que significará a vitória eleitoral de uma das coalizões, mesmo difusas como se apresentam. A democracia é um método de luta sem eliminação de adversários. Mais, a democracia é sempre de acordos e ações possíveis num quadro de relações de forças. Trata-se de uma “instabilidade criativa”, de “pactos de incertezas”. O bloco derrotado nas eleições é também parte do poder instituído e sem ele a própria democracia perde sentido. Claro, no Brasil, ainda estamos longe de admitir que uma vitória democrática não dá poder absoluto. Trata-se de um mandato delegado pela cidadania para dirigir responsavelmente o poder político e a gestão do Estado, sempre com responsabilidade compartida e controlada pelas forças adversárias. Ou seja, ganhará a cidadania e a democracia no Brasil se mais negociações entre forças políticas se tornarem necessárias para definir o melhor programa, as melhores políticas, as leis, regulações, taxas e impostos, os projetos e montantes do investimento público.
O terceiro aspecto, razão de ser de minha crônica, são os “subentendidos” da polarização. As ausências em termos programáticos se destacam dos dois lados. A polarização não se fez em torno de projetos e programas de futuro, mas de posições, de trincheiras de classes sociais, de regiões e territórios e de como a cidadania se sente ameaçada em seu modo de vida. Na verdade, destaco o subentendido das ausências pois elas são parte real da polarização e da disputa eleitoral, mas parte não debatida publicamente. Votamos dando um cheque em branco para os candidatos.
Aqui poderia destacar um monte de questões que precisaremos enfrentar desde o dia 27 de outubro, pois não poderão ser adiadas ou deixadas para ser resolvidas por si mesmas. A mais evidente é a crise ambiental, a nossa crise ambiental. No país das maiores reservas de água doce falta água! No imediato é uma questão de gestão, de falha das políticas, do esperar que o pior não aconteça. No longo prazo é também uma questão estrutural, de modo de desenvolvimento predatório, do modo como tratamos nossos bens comuns, entre eles um dos mais essenciais à vida: a água. A crise energética está ligada à gestão da água. A própria agricultura está ameaçada pela falta de água. Trago aqui o tema da água pois apesar do tamanho do problema parece que ele não existe.
O debate do desenvolvimento até apareceu nas entrelinhas, nos jornais diários impressos que atingem as elites das coalizões mas não o grande público, um debate entre assessores e gestores de políticas monetárias e fiscais, entre ministros e candidatos a ministros. Nada convertido para a disputa eleitoral aberta. No entanto, é dele que se trata. Lamentavelmente, estamos diante de ameaças de um neoliberalismo arrogante de livre mercado para crescer e de um desenvolvimentismo destruidor regulado pelo Estado para crescer com distribuição social. Está totalmente ausente, nem Marina simbolizou isto, o necessário debate sobre “alternativas” para transformar a economia e torná-la social e ambientalmente sustentável. Seria muito simples se nosso problema fosse apenas ter inflação controlada e boas taxas de crescimento, escolhendo qual o caminho para crescer. Nosso problema mais urgente é enfrentar a desigualdade social e a destruição ambiental ao mesmo tempo, de forma democrática. É neste futuro que penso quando proponho pensar em fundamentos éticos para modelos de biocivilização como futuro possível.
Isto me remete à questão totalmente ausente: que Brasil estamos construindo? Em que bases que não sejam destrutivas e socialmente excludentes? Para quem? Acho, como disse acima, a polarização política atual um começo, um ponto de partida. Simplesmente isto. Temos que aprofundar as contradições que ela contem e fazer emergir um real debate sobre o Brasil no século XXI. Penso num Brasil que possa caminhar mudando profundamento as bases da civilização atual do ter e acumular sem limites. Precisamos começar aqui e agora definir novas bases, tirando partido do que somos, um país de 200 milhões de habitantes, de uma cidadania ativa ímpar se olharmos o mundo, tanto em termos de tecido organizativo como em formas de participação social e política. Temos um enorme bem comum mundial a gerir, um dos maiores territórios cidadãos do planeta, com fantástica biodiversidade, água e minerais.
Termino esta crônica com uma ideia força no debate logo após a “solução” de nossa disputa eleitoral. Penso que temos o direito e a responsabilidade de pensar o mundo a partir do Brasil. As mudanças geopolíticas em curso, reveladoras da crise da civilização capitalista industrial,produtivista e consumista, não apontam somente para novas forças emergentes, potenciais imperialismos do amanhã. O momento pode significar uma oportunidade de mudar a organização da própria humanidade, em formas mais democráticas e compartidas. Neste sentido, a pergunta que, como brasileiros e brasileiras, não podemos postergar é “Que Brasil o Mundo Precisa?”. Será que estamos assumindo a nossa responsabilidade na construção de “outro mundo”?



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