segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Que Dilma vem aí?

Glauco Peres da Silva, Economista, formado pela USP, tem doutorado em Administração Pública e Governo pela FGV-SP, com estágio doutoral no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Foi coordenador de graduação dos cursos de Economia e Relações Internacionais da FECAP por sete anos. Atualmente, é professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo.



Terminada a apuração da eleição mais apertada da história recente do Brasil, Dilma Rousseff é reconduzida ao Palácio do Planalto com pouco mais de 51% dos votos válidos. Seu primeiro discurso como presidente reeleita menciona a abertura ao diálogo e a promoção de mudanças.  Porém, seu perfil não mostrou ser este ao longo destes quatro anos. É emblemático deste comportamento, em seu discurso não mencionar o candidato da oposição, Aécio Neves. Qual o diálogo que pensa ela fazer ou com quem dialogará? Mas em termos práticos, conhecida por ser bastante centralizadora e com pouca paciência, a presidente Dilma terá uma dificuldade importante com a qual lidar ao longo deste seu próximo mandato: a minoria derrotada é muito grande. Qual sinal ela entenderá deste resultado das urnas?
 “Qual o diálogo que pensa ela fazer ou com quem dialogará?”
Em um extremo, ela pode entender que recebeu um apoio ao governo que implementou até aqui. Neste sentido, seu segundo mandato seria uma continuidade do que fez até agora: reforçaria as políticas sociais e pautaria a economia por uma clara intervenção do Estado, com a preocupação em manter elevado o salário mínimo e o emprego. Em outro extremo, ela pode entender que nesta eleição ela quase perdeu mais do que ganhou, o que é um forte sinal de que sua gestão é reprovada por parcela expressiva da população e, a partir daí, tomar um caminho que a aproxime mais dos governos Lula do que de seu próprio mandato. Estas são situações extremas. O mais certo é encontrarmos um governo que esteja em um ponto intermediário, tendendo para um dos lados. Mas qual lado?
“Em um extremo, ela pode entender que recebeu um apoio ao governo que implementou até aqui. (…)Em outro extremo, ela pode entender que nesta eleição ela quase perdeu mais do que ganhou (…)”
É difícil dizer, evidentemente. Como foi dito, o perfil da presidente não é o de disposição ao diálogo. Já pelo seu primeiro discurso, a sinalização quanto à necessidade de diálogo é um sinal importante. As medidas econômicas necessárias que serão de forte ajuste podem ser um bom indicativo desta sua disposição. Ela precisa, por exemplo, se aproximar do empresariado, que certamente lhe fez oposição ao longo desta campanha. Este é um diálogo que ela precisa travar. Paro por aqui porque enumerar os focos com quem dialogar seria extenso. Apenas cito um outro que lhe é muito caro.
“(…)o perfil da presidente não é o de disposição ao diálogo.”
A transferência de renda no Brasil não se trata apenas de ser entre ricos e pobres, mas é também regional. Os mais pobres, aqueles que se beneficiam de boa parte dos programas do governo federal, não estão nos estados mais ricos da federação. Isto implica em um duplo movimento que acentua uma cisão, ao menos nos discursos, latentes desde a Revolução de 1932 no Brasil, que é a dependência do país ao desempenho econômico do Sudeste, notadamente de São Paulo. Estabelecer o diálogo, portanto, passa por evitar que um preconceito, inclusive, e uma indisposição federativa paute as disputas políticas no Brasil, como de certa forma já ocorrem após várias eleições nacionais no Brasil.
“A transferência de renda no Brasil não se trata apenas de ser entre ricos e pobres, mas é também regional.(…).Estabelecer o diálogo, portanto, passa por evitar que um preconceito, inclusive, e uma indisposição federativa paute as disputas políticas no Brasil, como de certa forma já ocorrem após várias eleições nacionais no Brasil.”
A disposição em conversar é um gesto muito importante. Dilma deu esse sinal. Porém, ele não é suficiente. Seu governo precisará neste sentido ser bastante diferente do que foi para não acirrar imagens indesejadas por ninguém que minimamente se preocupe com o ambiente político e a qualidade da democracia no país.
“A disposição em conversar é um gesto muito importante. Dilma deu esse sinal. Porém, ele não é suficiente.”

Na íntegra, via Entrementes.

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