quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Violência contra a mulher: nada de novo no front

Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais, Docente da UFERSA e Coordenador do GEDEV (Grupo de Estudos Desenvolvimento e Violência).
 

Ontem, no dia de combate à violência contra a mulher, os movimentos sociais voltados à luta contra a violência de gênero se manifestaram. A mídia, aqui e acolá tratou do assunto. Nada demais. O cerne central da questão, que envolve uma discussão sobre educação e gênero no Brasil passou desapercebido. 
Mulheres são vítimas expostas e ocultas de uma gama infinda de agressões e violências. Boa parte delas por parte de seus maridos, namorados e companheiros. Estas vão do estupro à coerção moral, passando pelo cativeiro físico e econômico. Ao mesmo tempo, são minoria no caso dos homicídios. Estatisticamente, são menos de 10% das vítimas de assassinato no Brasil. 
Não nos iludamos com os dados em si. O Brasil é campeão de estupros, com mais de 50 mil por ano  (probabilidade), onde apenas cerca de 35% são notificados. Estupramos tanto quanto países em guerra. Além disso, imputamos às vítimas a culpa do crime: suas roupas, sua hexys corporal, ou o simples fato de serem mulheres em um ambiente em que, nós homens, agimos como chimpanzés em busca de parceiras (os primos primatas, que não dispõem de seu harém próprio, estupram as fêmeas incautas e desprotegidas dos machos dominantes). Pois é. Agimos como símios.
Somos educados para a violência em certo parâmetro e a violência de gênero é absolutamente incrustada como normalidade em nosso processo de socialização. Dominação masculina que Pierre Bourdieu apontou como integrante deste processo e, por isso mesmo, presente em nível simbólico, reproduzindo-se nos discursos e nas práticas.
Qualquer mudança de paradigma tem que passar, necessariamente, na forma como reproduzimos esses sistemas simbólicos e essas práticas. Uma educação não sexista é um passo necessário. Enquanto isso não ocorre, mais gelo a enxugar.

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