Sobre o autor


Thadeu de Sousa Brandão

Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor Adjunto de Sociologia da UFERSA e do Mestrado Acadêmico Interdisciplinar em "Cognição, Tecnologias e Instituições" (CCSAH/UFERSA) - (Nota 4 CAPES). Líder do grupo de Pesquisa "Observatório da Violência do RN". Autor de "Atrás das Grades: habitus e interação social no sistema prisional", "A Senhora do Sertão: a Festa de Sant'Ana de Caicó" e co-autor de "Rastros de Pólvora: Metadados 2015" e de "Observatório Potiguar 2016: Mapa da Violência do RN". Apresentador do Programa Observador Político da TV Mossoró e 93FM. Colunista do Jornal O Mossoroense.

Política, Sociologia, Ciência, Cultura e Filosofia. Blog criado em 22 de Outubro de 2012 e organizado por Thadeu de Sousa Brandão.

Siga nossa página no Facebook: https://www.facebook.com/profthadeubrandao/

Contato, críticas, sugestões e artigos: thadeubrandao@bol.com.br

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Carnatal e a privatização do espaço público



Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais, Professor da UFERSA e Coordenador do GEDEV (Grupo de Estudos Desenvolvimento e Violência).
 
“O Carnatal volta ao seu espaço: a rua”. Li em um jornal local. A frase foi atribuída a um dirigente da empresa privada com fins lucrativos que administra o evento. Este, desde seu nascedouro, ocorre em vias públicas de Natal: primeiro no Centro da cidade, depois em Lagoa Nova, onde há vinte anos, com exceção do ano passado, se realizou.
Gerador de controvérsias, o Carnatal é umas das derradeiras “micaretas” (carnavais fora de época) do Brasil. Realizadas a fim de movimentar o parco (ironia fina) rendimento do empresariado do “axé music”, as micaretas se espalharam pelo Nordeste e por outras regiões. A febre, com patrocínio do dinheiro público, à revelia das normas ambientais e alimentadas pelo trabalho temporário e precarizado, perdurou nos anos 1990.
Com a banalização da mesmice e a repetição do engodo musical, as micaretas foram sendo empurradas para espaços privados. Afinal, trata-se de festa privada em espaço público, contradição tipicamente brasileira: privatizar o espaço público em detrimento dos interesses coletivos. O Carnatal é hoje, salvo alguma outra exceção, a única micareta que sobrevive no gozo do espaço público.
Arrebanhador de multidões, a festa é elitista e excludente. Cerca de 40 mil pessoas participam dos blocos (abadás – vestes folianescas - devidamente pagos) e mais alguns milhares dos camarotes e arquibancadas. Uma verdadeira hierarquia social do uso se impõem onde camarotes, blocos e arquibancadas se colocam como uma pirâmide da exclusividade. As demais, centenas de milhares de pessoas de fora, são a “pipoca”, nas ruas a ver os blocos em suas passagens. Cordões de isolamento, seguranças privados e outros detalhes lembram do dilema de quem “está dentro” e de quem “fica de fora”.
Ganhos? Sim claro. A empresa produtora do Carnatal é a grande vitoriosa. Tanto que possui parlamentares eleitos e já teve até vice-prefeito na gestão Micarla. Lembram? Pois é. A população do entorno de Lagoa Nova, que tem seu direito de ir e vir, além de sua tranquilidade destruída, passará a visualizar o velho problema sazonal.
Empregos gerados? Quase todos precarizados, temporários e de baixos salários. Duram alguns dias. O volume gasto com os abadás possuem destino certo: indústria de bebidas, bandas da Bahia e a empresa organizadora. O comércio de Natal, sem calcular racionalmente, sofre uma certa queda decorrente. Uma pesquisa séria apontaria o fenômeno, não tenho dúvidas.
A sujeira? Esse custo recai sobre o poder público municipal: nossos impostos custeiam a limpeza extra. A violência a aglutinada associada ao uso excessivo de álcool e à multiplicação das oportunidades de crimes? O gasto com policiamento ostensivo (pago em diárias operacionais)? Gastos hospitalares extras? Tudo isso tem ônus certo a ser pago: nosso bolso!
Não apontarei o uso exacerbado de drogas, bebidas, sexo inseguro e alhures. Cairia no moralismo baratão que não permite enxergar o problema. Interessa lembrar que, quando ocorreu no Parque Aristófanes Fernandes em Parnamirim, ano passado, o evento foi um fracasso (de lucro). Voltar a ocupar o espaço público, privatizando-o descaradamente é a tônica do Carnatal.
Neste e nos demais sentidos, o Carnatal é a nossa cara.

Nenhum comentário:

Postar um comentário