Sobre o autor


Prof. Dr. Thadeu de Sousa Brandão

Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor Adjunto (IV) de Sociologia da UFERSA e do Mestrado Acadêmico Interdisciplinar em "Cognição, Tecnologias e Instituições" (CCSAH/UFERSA) - (Nota 4 CAPES). Líder do grupo de Pesquisa "Observatório da Violência do RN". Autor de "Atrás das Grades: habitus e interação social no sistema prisional", "A Senhora do Sertão: a Festa de Sant'Ana de Caicó" e co-autor de "Rastros de Pólvora: Metadados 2015" e de "Observatório Potiguar 2016: Mapa da Violência do RN". Apresentador do Programa Observador Político da TV Mossoró e 93FM. Colunista do Jornal O Mossoroense. Consultor da Comissão de Segurança Pública e da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RN.

Política, Sociologia, Ciência, Cultura e Filosofia. Blog criado em 22 de Outubro de 2012 e organizado por Thadeu de Sousa Brandão.

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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Ciência com sujeito

Na íntegra, via Revista Piauí.


Os cientistas têm fama de escrever seus artigos em linguagem fria e impessoal. Um marcador gramatical típico dessa impessoalidade é o uso de frases construídas na voz passiva, do tipo “Os voluntários foram selecionados”, “As amostras foram analisadas” ou “O procedimento foi repetido”. Esse tipo de oração muitas vezes oculta os responsáveis pela ação descrita e parece excluir os pesquisadores da arena da construção do conhecimento. Por isso, a voz passiva pode contribuir para criar a impressão de um conhecimento sem agente, neutro e universal.
Mas será mesmo possível afirmar que os cientistas têm mania de escrever na voz passiva? O linguista Leong Ping Alvin, da Universidade Tecnológica Nanyang, em Cingapura, resolveu investigar a questão e chegou a conclusões surpreendentes, relatadas num artigo publicado na edição de março do Journal of Science Communication.
O autor notou que, embora os cientistas tenham caprichado no recurso à voz passiva no século XX, a tendência está se atenuando nos últimos anos. Esse cacoete gramatical tem sido cada vez mais criticado em manuais de redação científica e nas instruções para autores dos periódicos. O Journal of Trauma and Dissociation, por exemplo, se reserva o direito de solicitar aos autores que reescrevam seus artigos caso abusem da voz passiva.
Um artigo citado por Alvin apontou um declínio desse recurso em artigos científicos entre os anos 1960 e os anos 1990 – ainda assim, cerca de metade das orações analisadas na amostra dos anos 1990 usava a voz passiva. Um estudo mais recente, feito em 2013 com artigos da literatura médica, apontou uma proporção parecida – 43% das orações na voz passiva.
A julgar pela análise conduzida por Alvin, o uso desse recurso está mesmo em declínio. O linguista trabalhou com uma amostra de 60 artigos publicados em 2013 em seis revistas, incluindo Science e Nature – todas em inglês. Constatou que apenas 30% das orações estavam na voz passiva, sendo que cerca de um terço dessas ocorrências estava na seção de métodos. É complicado, no entanto, comparar os resultados desse estudo com os trabalhos anteriores, por terem recorrido a metodologias diferentes.
As conclusões indicam que os cientistas caminham no sentido de escrever seus artigos de forma menos impessoal – embora a prosa acadêmica média ainda esteja longe de palatável . Resta ver se os números encontrados por Alvin se repetirão em estudos com um número mais amplo de artigos e revistas.
O linguista acredita que a média encontrada por ele deva se manter no futuro próximo. “Na medida em que os periódicos incluídos no estudo são conhecidos e bastante lidos por pesquisadores sérios, é provável que a norma atual influencie a escolha da voz gramatical em artigos acadêmicos”, escreveu Alvin na conclusão do seu trabalho.

(foto: John (Miś) Beauchamp – CC 2.0 BY-NC-ND)

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