Sobre o autor


Thadeu de Sousa Brandão

Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor Adjunto de Sociologia da UFERSA e do Mestrado Acadêmico Interdisciplinar em "Cognição, Tecnologias e Instituições" (CCSAH/UFERSA) - (Nota 4 CAPES). Líder do grupo de Pesquisa "Observatório da Violência do RN". Autor de "Atrás das Grades: habitus e interação social no sistema prisional", "A Senhora do Sertão: a Festa de Sant'Ana de Caicó" e co-autor de "Rastros de Pólvora: Metadados 2015" e de "Observatório Potiguar 2016: Mapa da Violência do RN". Apresentador do Programa Observador Político da TV Mossoró e 93FM. Colunista do Jornal O Mossoroense.

Política, Sociologia, Ciência, Cultura e Filosofia. Blog criado em 22 de Outubro de 2012 e organizado por Thadeu de Sousa Brandão.

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segunda-feira, 18 de maio de 2015

"Mossoró Cidade Junina" e a Débâcle da Cultura Mossoroense

Thadeu de Sousa Brandão é Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor de Sociologia da UFERSA. Coordenador do GEDEV (Grupo de Estudos Desenvolvimento e Violência). Consultor de Segurança Pública da OAB Mossoró. Autor de "Atrás das Grades: habitus e interação social no sistema prisional".
 
Mossoró é uma cidade cujos eventos históricos e expressões culturais sempre foram reapropriados pelas suas elites em geral a fim de reafirmar sua identidade. Em artigo científico que publiquei em 2013, afirmei que esses processos são intencionais e denotam as relações de poder existentes.
Nestes eventos é nitidamente clara a preocupação de construírem-se momentos culturais de caráter apoteóticos, onde as pessoas possam ser atraídas pelo espetáculo. Neste sentido, grandes palcos e estruturas são montados e, durante os dias do evento, são apresentados repetidamente, relembrando os velhos autos medievais e coloniais. Na tradição festiva brasileira, o comum era que as festas saíssem do âmbito religioso para o espaço profano, onde a festa e o espetáculo se mostram como elementos agregadores e renovadores sócio-culturais.
Das manifestações reconstruídas, a mais significativa é o "Mossoró Cidade Junina", evento que reúne várias atrações, onde o "Chuva de Balas no País de Mossoró" é, com certeza, o mais importante. No “Chuva de Balas no País de Mossoró”,há uma reapropriação da história, que se dá numa clara escolha das elites políticas locais, notadamente o grupo Rosado que soube dar um ressignificado aos fatos, criando uma valorização da força e valentia do homem mossoroense no enfrentamento do cangaço, quando Lampião e seu bando, em 1927, tentaram invadir a cidade, sendo rechaçados pela população. Uma nítida representação da força e da valentia é associada à liderança do Prefeito Rodolfo Fernandes, organizador da resistência. O auto, em si, longe de ratificar a figura do prefeito, indica e valoriza o brio do povo, sua luta heroicizada contra o “bando” de Lampião.
Encenado ao ar livre, o Auto é protagonizado inteiramente por artistas da terra e ocorre na frente da Igreja de São Vicente, onde é possível ver as marcas do confronto ainda nos dias atuais. O texto lembra o episódio histórico de modo e contrapõe ideologias e insinua a presença do povo entre as duas forças antagônicas: o poder constituído, de um lado, os cangaceiros, do outro. Sob o comando do prefeito, uma pequena guarda da cidade, afugenta o bando de Lampião. Com apoio de populares, armando barricadas e esperando a vanguarda do bando, Rodolfo Fernandes encarna o símbolo do sertanejo e mossoroense que enfrenta as agruras da vida com valentia, elementos presentes no Auto e nos discursos cotidianos. Valentia, “macheza”, coragem, características que associam-se à identidade mossorense, não apenas ao reviver o espetáculo, mas mesmo nos discursos políticos de suas elites.
Mas, o MCJ é também construído por outras atrações que envolvem uma mini-cidade cenográfica que apresenta atrações gastronômicas e musicais fora do grande eixo. Este eixo maior ocorre na Estação das Artes e são as bandas e cantores que se apresentam a cada noite.

CIDADE-JUNINA

O MCJ foi construído como uma alternativa de atração de visitantes e turistas para a cidade. Como todo evento, precisa ser continuamente investido e, mais do que nunca, precisa de uma identidade firmada. Eis a grande questão. Neste ano, ao menos, falta uma identidade ao maior evento mossoroense.
Se falamos de "cidade junina", o espaço destinado à tal é delimitado é cada vez menor. Artistas da terra possuem pouco espaço, cada vez mais reduzido à marginalidade dos becos e vielas. Nos grandes palcos apenas os de fora, notadamente, alguns que nada têm a ver com o evento "junino". Banda de axé (no "Pingo da Mei Dia" e sertanejos (como Luan Santana já anunciado) vão substituindo a tal "magia do forró" nordestino". Festa globalizada, vão dizer seus defensores... Neste caminhar, aguardemos Paul Mccartney ano que vem?
O mais absurdo, se me permitem alguma estranheza e inquietação, é o silêncio obtuso das camadas cultas da sociedade mossoroense. Seus grupos de teatro, música e alhures são deixados de lado, restando-lhes espaços à margem do mega evento. Com eles, fica a identidade local, obstruída pela festa massa, festa multidão, panes aet circum, sublimadora das críticas e desconstrutora de cultura popular.
Uma decadência (débâcle) sem dúvida. E com o silêncio comprometedor da esquerda e dos movimentos sociais locais, para não dizer que não falei em flores.

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