terça-feira, 30 de agosto de 2016

Dilma: a mulher e a solidariedade feminina

Por Thadeu Brandão.






Um dos temas mais antigos da sociologia é a solidariedade, tornado clássico por Émile Durkheim, um dos "pais fundadores", em sua discussão na "Divisão do Trabalho Social", sua tese de doutoramento. Aqui, Durkheim divide as formas de solidariedade em duas, apontado que cada uma delas denotaria um modelo societário próprio: a mecânica, de sociedades tradicionais; e a orgânica, de sociedades modernas. As interações são diferenciadas e as formas de agregação impelem a mais individualismo ou a menos individualismo. Não, amigo, o sociólogo francês não estava fazendo ode às sociedades tradicionais. Ele apontou que, no processo de construção da modernidade, o individualismo representava mais liberdade. Haviam perdas, obviamente. O aumento do suicídio era um, e ele o tratou em outra obra magistral.
Mas, a pari passu, ampliarei a discussão sobre solidariedade. Esse amálgama básico do viver em sociedade, epicentro das reciprocidades grupais, aparece em todos os grupamentos humanos. Ser solidário é apanágio de todos. As exceções são individuais ou psicopatológicas. Não as tratarei aqui. 
Enfim, somos solidários na doença e na tristeza, na morte e nas angústias. Principalmente com quem simpatizamos ou conhecemos, vivemos ou convivemos. Mais fácil, pois a proximidade e a simpatia facilitam o processo. Por isso, grupos menores tendem a ser mais coesos. Solidariedade mecânica, lembraria Durkheim - a força da "consciência coletiva".
Não sei como cientificizar a discussão levando-a para a questão de gênero. Mas, há percepções sérias de que as mulheres são socializadas para serem mais solidárias. Em minha pesquisa de doutorado, há 6 anos atrás, vivenciei um espetáculo que muito me marcou: nas prisões masculinas, as visitas femininas formam imensas filas com mães e esposas, etc. Escrevi, sobre isso:

Os dias de visita são Sábados e Domingos. Dois pavilhões por vez, alternando-se a cada fim de semana. A maior parte dos visitantes são mulheres e crianças: mães, esposas e filhos dos apenados. Chegam cedo, às vezes perto das 3 da madrugada e esperam até as 8 da manhã para entrar para a visita. Trazem comida, refrigerantes, material de higiene pessoal e remédios. Esses materiais são chamados de “jumbos”, em referência aos grandes aviões que podem carregar muitas coisas. Nas quartas-feiras ocorre a visita íntima para os presos casados e cadastrados. Todas passam pela revista do presídio que conta com agentes femininas para o processo.

Muitas das mulheres que pudemos conversar vêm toda semana. Chegam, como disseram, “a pagar a pena” com seus maridos ou filhos. O custo é alto, não só de deslocamento (pela falta de transporte público até o local), como pelo fato de ter de se trazer o jumbo sempre. Um dos maiores inconvenientes apontados foi a demora na entrada do presídio. Como o número de agentes é reduzido, apenas quatro fazem o trabalho de revista (dois homens e duas mulheres). 


Solidariedade na dor.
Já nas prisões femininas, ocorre quase que o oposto: poucas visitas apontam a falta de solidariedade. A solidão é a tônica das apenadas, que não recebem (praticamente) visitas de seus maridos, namorados ou companheiros. Nem mesmo de suas famílias que as abandonam. São minoria na prática de crimes e, os mesmos, em geral, não são violentos quanto os masculinos. Não há reciprocidade nessa solidariedade.  
Ontem verifiquei imagens, fora do Congresso Nacional Brasileiro, durante a defesa da presidenta Dilma Roussef, afastada por um processo de impeachment. Eram poucos os manifestantes naquele momento. O interessante: todos que lá estavam, apoiavam a presidenta defenestrada. Mais curioso ainda: quase todas eram mulheres.
Uma amiga me lembrou que solidariedade é uma palavra feminina. Pois bem. Não há nada de genético ou biológico nisso. As mulheres são socializadas para a solidariedade. Da mesma forma como são educadas para o diálogo e a mediação conflituosa. Desde suas brincadeiras infantis, a sociedade as educa para a paz e para o amparo. Nem sempre isso se concretiza, obviamente, mas o fato de que menos de 6% dos crimes violentos sejam praticados por mulheres fala muito por si. 
O fato de que a única ministra (fora do PT e aliados) a permanecer fiel à presidenta afastada ser uma mulher, também é simbólico demais para ser rejeitado.
Outra lembrança indelével: República e Democracia, são também palavras femininas. Talvez por isso alguns brutamontes acreditem que devam ser violentadas corriqueiramente. Enfim, que aprendamos a ser como elas: solidários. Será um passo a mais no avanço civilizatório.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observatório da Violência do RN lança Mapa da Violência 2017

O OBVIO - Observatório da Violência, em parceria com a Comissão de Segurança Pública da OAB, convida estudiosos e autoridades da área de...