segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Tibau, RN e os verões da anomia auditiva

Por Thadeu Brandão.


O visitante de Tibau, RN, ao adentrar na bela praia, de brisa suave amortecedora do calor do sertão, logo se encanta com suas linhas singelas e mar caloroso. Praia de veraneio de boa parte da classe média de Mossoró, a quem divisa, faz fronteira com Icapuí, com quem divide a orla e parte da zona urbana da cidade. A esta parte, mais oriental, os veranistas denominam de “Ceará”.

Tibau mais do que dobra durante o verão. Sua pequena população, de cerca de 5 mil habitantes, chega a 100 mil com a chegada dos veranistas, de ampla maioria oriunda de Mossoró, cujo trajeto em rodovia estadual recentemente duplicada, mal chega a 40 minutos. Quedas de energia elétrica, falta de água e superlotação não são os únicos problemas enfrentados pelos veranistas, turistas e autóctones da cidade praia.

O Código Civil Brasileiro, assim como leis ambientais específicas, disciplinam e regulam de forma clara o uso e abuso de som público em todo o território nacional. Avanços socioculturais e maior desenvolvimento social fizeram com que, abusos quanto a som alto sejam cada vez menos decorrentes em cidades grandes e médias do Brasil. Mas, em pequenas localidades, onde as polícias contam com pouco efetivo (menos ainda que nas maiores), o abuso de som alto, com usos de “paredões de som” (estruturas reprodutoras de som imensas, com reboque automotivo) virou a tônica desde alguns anos atrás.

Em Tibau, como constatei neste fim de semana, os “paredões de som” dão a tônica da destruição normativa e do escárnio da cidadania. Quem tiver o maior som, impõe não apenas seu (péssimo) gosto musical: mas estabelece a altura com que, também, idosos, crianças e toda a espécie de gente tem que se adequar. A polícia é chamada, passa pelo local e...? O som é aumentado quando as autoridades saem. Um eterno retorno de paciência e descrença na legalidade.

Em algumas ruas, como verifiquei, várias casas disputam entre si no frenesi dos sons nas alturas, tocando os ritmos frenéticos e bacantes dos novos funks (por exemplo, mas pode ser qualquer coisa), como o “... eita P... vai C...”.

Interessante que se fala em desenvolver turismo em Tibau. Além das dificuldades corriqueiras a que todo destino potencial passa, lembro que, com esse nível de anomia e de expressão de desrespeito mínimo à cidadania, não há como se empreender uma rede hoteleira mínima. Mesmo as casas de show oficiais também desrespeitam as normas ambientais e o Código Civil Brasileiro no que se refere ao abuso de som alto. Há espaço para casas de shows, etc., mas de forma organizada e civilizada.


Por enquanto, no locus paradisíaco mossoroense, reina a absoluta anomia auditiva.

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