quinta-feira, 15 de junho de 2017

Amor e a idade em "Memórias de Minhas Putas Tristes"

Por Thadeu Brandão.



"Memórias de minhas putas tristes" de Gabriel García Márquez é daquelas obras que lemos em uma única sentada. Sem perder o fôlego. Li numa viagem de duas horas, sacolejando em uma van. Li sem parar ansiando com cada frase e desenrolar que o autor de "Cem anos de solidão" e "Amor em Tempos de Cólera" já havia me proporcionado. O começo é nu e cru: “No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem” (MARQUEZ, 2007, p. 07).
Isso mesmo. Um velhinho solteiro e solitário, "feio, tímido e anacrônico" teve um desejo compulsório incrivelmente feroz. Isso numa idade em que se imaginam que os homens estariam mortos para tanto. Escritor de crônicas, leu muito e muito escreveu, vindos com a idade, as durezas da velhice: “Os sintomas do amanhecer tinham sido perfeitos para não ser feliz: me doíam os ossos desde a madrugada, meu rabo ardia, e havia trovões de tormenta depois de três meses de seca” (MARQUEZ, 2007, p. 11).
Assim como eu que vos escrevo, foi aos 40 anos em que a personagem pensou na sua idade em termos de velhice e, como eu, se acostumou a despertar a "cada dia com uma dor diferente que ia mudando de lugar e forma, à medida que passavam os anos” (2007, p. 13).
Aos cinqüenta anos, ele havia começado a imaginar o que era a velhice quando notara os primeiros vazios e esquecimentos da memória. "Revirava a casa buscando meus óculos até descobrir que os estava usando, ou entrava com eles no chuveiro, ou punha os de leitura sem tirar os de longe” (2007, p. 13-14).
Quanto ao sexo, isso nunca o havia preocupado: 
"(...) porque meus poderes não dependiam tanto de mim como delas, e quando querem elas sabem o como e o porquê. Hoje em dia dou risada dos rapazes de oitenta que consultam médico assustados por causa desses sobressaltos, sem saber que os noventa são piores, mas já não importam: são os riscos de estar vivo. (...) é um triunfo da vida que a memória dos velhos se perca para as coisas que não são essenciais, mas rara vezes falhe para as que de verdade nos interessam” (2007, p. 14).
Em toda a sua vida, ele nunca havia se deitado com mulher alguma sem pagar, e as poucas que não eram prostitutas ele as convencera que recebessem o dinheiro nem que fosse para jogar no lixo. Um hábito indelével se consumou: perto dos vinte anos começou a fazer um registro com o nome, a idade, o lugar, e um breve comentário das circunstâncias e estilo. 
"Até os cinquenta anos eram quinhentas e catorze mulheres com as quais eu havia estado pelo menos uma vez. Interrompi a lista quando o corpo já não dava mais para tantas e podia continuar as contas sem precisar de papel. Tinha minha ética própria. Nunca participei em farras de grupo nem em contubérnios públicos, nem compartilhei segredos nem contei uma só aventura do corpo ou da alma, pois desde jovem me dei conta de que nenhuma é impune” (2007, p. 16).
Sua cafetina de sempre, Dona Rosa Cabarcas lhe encontra o presente. Uma ninfeta (diríamos nesta era pós Nabokov) de 14 anos de idade. Virgem e eminentemente proibida. A arte do rufianismo, era, como hoje, “(...) um negócio que todo mundo conhecia mas ninguém reconhecia” (2007, p. 28).
O primeiro encontro foi um contraste de seres: ela dormia e assim permaneceu. Ele acordado ficou, embevecido e contemplando a jovem:
“Foi algo novo para mim. Ignorava as manhas da sedução e sempre tinha escolhido ao acaso as noivas de uma noite, mais pelo preço que pelos encantos, e fazíamos amores sem amor, meio vestidos na maior parte das vezes e sempre na escuridão para imaginar-nos melhores. Naquela noite descobri o prazer inverossímil de contemplar, sem as angústias do desejo e os estorvos do pudor, o corpo de uma mulher adormecida” (2007, p. 35).
Sua vida mudou por completo. E se o leitor esperava a volúpia da descrição sexual e do coito amostras, se enganou. Nada disso. Ele estava se apaixonando, coisa que nunca havia feito em 70 anos de putas e cabarés. Numa de suas reflexões sobre a velhice, a percepção tola que as moças mais jovens têm dos homens que, pensam elas, já não estão  mais aptos para as artes do amor:  “(...) um dos encantos da velhice são as provocações que as amigas jovens se permitem, achando que a gente está fora do jogo” (2007, p. 51).
Ele chega a desistir do desenlace de desvirginar a jovem ninfa caribenha. Mas ainda queria vê-la, sem mesmo tocá-la ou mesmo amá-la com seu corpo. Ele apenas precisava dela. Assim:
“(...) da mesma forma que os fatos reais são esquecidos, também alguns que nunca aconteceram podem estar na lembrança como se tivessem acontecido. (...) Por que você me conheceu tão velho? Respondi com a verdade: A idade não é a que a gente tem, mas a que a gente sente” (2007, p. 67-68).
Na entrada do cabaré, o chofer o preveniu: "Cuidado, sábio, nessa casa matam gente. Respondi: Se for por amor, não importa” (2007, p. 70).
Era Degaldina o nome da menina mulher devota de seu amor. Graças a ela enfrentou pela primeira vez seu ser natural enquanto transcorriam seus noventa anos. Descobriu que 
"minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. (...) Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco” (2007, p. 73-74).
Afinal, fez a descoberta mais incólume que um amante pode ter em sua miserável estadia na vida de amor:  "O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança” (2007, p. 79).
Após meses, voltando a andar de bicicleta e amando-a cada vez mais, se viu sem poder deixar de vê-la. Descobriu que o amor é adolescente porque a dor de amor é completamente adolescente, não importa a idade. Descobriu que estava morrendo de amor. E também percebeu que era válida a verdade contrária: "não trocaria por nada neste mundo as delícias do meu desassossego” (2007, p. 95).
Um encontro suscitou mais ainda a verdade que lhe já estampava no rosto. 
“No ônibus lotado de Loma Fresca, uma vizinha de assento, que eu não havia visto subir, me sussurrou ao ouvido: Você ainda trepa? Era Casilda Armenta, um velho amor de cada três por dois que me havia suportado como cliente assíduo desde que era uma adolescente altiva. Uma vez aposentada, meio doente e sem um tostão, havia se casado com um hortelão chinês que lhe deu nome e apoio, e talvez um pouco de amor. Aos setenta e três anos tinha o peso de sempre, continuava bela e de gênio forte, e conservava intacto o desenfado de seu ofício” (2007, p. 108).
O fecho dessa verdade, foi dado por Rosa Cabarcas, com a mais inexorável das verdades: "Não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor” (2007, p. 111).
Finalmente, no começo de julho começou a sentir a distância real da morte. Seu coração perdeu o compasso e começou a ver e a sentir por todos os lados os presságios inequívocos do final. “ – Ai, meu sábio triste, está bem que você esteja velho, mas não idiota – disse Rosa Cabarcas morrendo de rir. – Essa pobre criatura está zonza de amor por você” (2007, p. 127).

“Era enfim a vida real, com meu coração a salvo, e condenado a morrer de bom amor na agonia feliz de qualquer dia depois dos meus cem anos” (p. 127). Não há desenlace sexual. O autor deixa a cargo do leitor. Só sabemos que o amor perdura, enquanto obviamente dura.
Amor, sem idade, amor sempre. 

Citações
MÁRQUEZ, Gabriel García. Memória de minhas putas tristes. Tradução de Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro: Record, 2005. 

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